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#OCÉU177: A Bíblia versus o Secularismo – PARTE 104

Série de sermões expositivos sobre O Céu. Sermão Nº 177  –  O sexto dia da criação: a criação do homem (Parte 151).  Gn 1:27: a Bíblia versus o Secularismo (Parte 104). Pregação do Pastor Jairo Carvalho em 22/10/2025.

INTRODUÇÃO:

Continuamos com Dante, no Quinto Ciclo do Inferno, expondo seu poema “A Divina Comédia”. Dante nos conduz na descida ao pântano da ira, levando-nos a um território oculto e perigosamente familiar. Deixamos a superfície violenta dos iracundos para investigar as bolhas que sobem do fundo da lama, o sinal de uma miséria ainda mais profunda. Dante nos apresenta ali os Acediosos, as almas que se afogaram em sua própria amargura.

Hoje, não faremos apenas um estudo literário. Faremos um diagnóstico, pois esse pecado antigo, que os Padres do Deserto chamavam de acedia, o “demônio do meio-dia”, retornou ao nosso vocabulário moderno com um novo nome: burnout. A exaustão emocional, o cinismo, a perda de propósito que assola nossos escritórios, nossas famílias, nossas igrejas e, tragicamente, nossos púlpitos, é a mesma doença espiritual que Dante descreveu há 700 anos.

Vamos, portanto, com o rigor de um médico da alma, dissecar esse mal. Para tanto, uniremos a poesia de Dante, a teologia patrística de Agostinho e Cassiano, a psicologia de Jonas e a ciência contemporânea. Iremos expor a anatomia do burnout espiritual, para que, ao entendê-lo, possamos encontrar o caminho da cura.

  1. O Diagnóstico de Dante: A Ira que implode

A visão de Dante sobre os Acediosos é uma obra-prima de diagnóstico espiritual. Eles cantam um hino eterno, mas suas palavras são borbulhadas e ininteligíveis:

Tristes fomos / no ar doce que do sol se alegra e respira, / carregando dentro uma fumaça de acres assomos: / agora, na negra lama, nos entristecemos.”

a) A Exegese do Contrapasso

O contrapasso (punição que espelha o pecado) aqui é de precisão cirúrgica:

EM VIDA:

Recusaram-se a “respirar” o “ar doce” da graça, da alegria e da beleza da criação.

Sufocaram-se na “fumaça” de sua amargura interior, um ressentimento não expresso.

Mantiveram sua tristeza escondida, submersa, não confessada.

NA ETERNIDADE:

Estão literalmente submersos na “negra lama” que sua própria amargura gerou.

A “fumaça interior” tornou-se “lama exterior”, a materialização de seu estado de alma.

Tentam falar (confessar), mas estão afogados demais para formar palavras.

Só conseguem emitir bolhas de ar fétido – símbolo perfeito de comunicação fracassada e arrependimento sufocado.

 

b) A Análise Teológica Profunda: O Testemunho de Agostinho

Santo Agostinho (354-430), em suas Confissões (Livro VIII), oferece uma descrição fenomenológica da acídia pré-conversão que espelha perfeitamente a condição dos submersos de Dante:

“Eu estava doente e atormentado, acusando-me a mim mesmo muito mais severamente que de costume… Revirava-me em minha corrente…  Estava quase livre, mas ainda não livre… Uma pequena coisa me segurava, mas que pequena coisa! Ela me sussurrava… ‘Você acha que pode viver sem essas coisas?'”

A acídia é o estado de quase-conversão permanente. É a alma que conhece o bem, deseja o bem, mas ressente o preço do bem. É a paralisia da vontade que se recusa a dar o último passo para a liberdade, preferindo a miséria familiar de suas “correntes” à alegria exigente da graça.

  1. O Retrato Bíblico Definitivo: Jonas, o Profeta Acidioso

a) A Análise Exegética de Jonas 4:1-3

Se Dante nos dá a imagem, a Escritura nos dá o estudo de caso. Jonas é o arquétipo do homem consumido pela acídia.

“Mas Jonas descontentou-se com isto grandemente, e ficou irado. E orou ao SENHOR, e disse: Ah! SENHOR, não foi esta a minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Tarsis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. Peço-te, pois, ó SENHOR, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver.” (Jonas 4:1-3)

Análise Verso a Verso:

  • “Mas Jonas descontentou-se com isto grandemente, e ficou irado”: O texto hebraico é ainda mais forte: “וירע אל־יונה רעה גדולה ויחר לו” – literalmente “e foi mal para Jonas, um mal grande, e ardeu para ele”.Com isto” refere-se à misericórdia de Deus para com Nínive.
  • Aqui está a definição da acídia: Jonas está irado não com o mal, mas com o bem, com a graça de Deus estendida aos ninivitas.
  • “pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade”: Ironicamente, Jonas cita quase verbatim[1] Êxodo 34:6-7, a autorrevelação de Deus a Moisés no Sinai. Jonas conhece a teologia perfeitamente.

Ele pode recitar os atributos de Deus de cor. Mas ele ressente esses atributos. Ele está teologicamente correto, mas espiritualmente amargo.

  • “Peço-te, pois, ó SENHOR, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver”: Esta é a confissão clássica da acídia – a preferência pela morte à alegria com o bem que Deus faz.
  • O paralelo é perfeito: o “melhor me é morrer” de Jonas ecoa exatamente o lamento dos acidiosos de Dante: “tristes fomos… agora… nos entristecemos”.

b) A Análise Psicológica de Jonas

Dr. David Benner, psicólogo cristão, em The Gift of Being Yourself (2004), identifica em Jonas o que chama de “falsa identidade fundamentalista“:

“Jonas construiu sua identidade não em ser amado por Deus, mas em ser diferente dos pagãos. Quando Deus trata os ninivitas com a mesma graça que trata Jonas, Jonas perde seu senso de identidade. Sua raiva é, fundamentalmente, um pânico existencial disfarçado de indignação moral.”

Esta é uma visão profunda: a acídia muitas vezes nasce de um senso de identidade frágil e baseado em comparações, não na graça incondicional de Deus.

  1. A Sistematização Patrística e a Conexão Moderna

a) João Cassiano: O Grande Taxonomista[2] da Acídia

João Cassiano (c. 360-435 d.C.), em suas Instituições Cenobíticas (Livro X), oferece a descrição mais completa da acídia na literatura patrística:

“A acídia é uma ansiedade ou angústia do coração… Ela gera no monge o horror ao lugar onde vive, fastio pelos irmãos que vivem com ele, desprezo pelos trabalhos simples e corriqueiros, considerando-os inúteis… Ela o faz parecer preguiçoso e indolente para toda obra…”

b) A Análise Psicológica Contemporânea: De Cassiano ao DSM-5

Dr. Thomas Keating (1923-2018), monge trapista[3], identificou paralelos devastadores entre a descrição de Cassiano e os sintomas contemporâneos de:

Burnout Ocupacional (CID-11),

Exaustão emocional crônica

Despersonalização (cinismo em relação ao trabalho)

Redução da realização pessoal

Transtorno de Ansiedade Generalizada (DSM-5)

Ansiedade e preocupação excessivas

Dificuldade em controlar a preocupação

Inquietação ou sensação de estar “no limite”

Fadiga fácil

Dificuldade de concentração

 Anedonia (perda da capacidade de sentir prazer):

Desinteresse por atividades previamente prazerosas

Sensação de vazio existencial

Apatia emocional

Dr. Keating observa: “A acídia é o burnout espiritual antes de existir o conceito de burnout. É a ansiedade generalizada aplicada especificamente à vida espiritual. Os Padres do Deserto estavam fazendo psicologia profunda 1.600 anos antes de Freud.”

  1. Manifestações Contemporâneas da Acídia

A. O “Doomscrolling” Espiritual

O termo “doomscrolling[4]” (rolar infinitamente por notícias ruins) captura perfeitamente a acídia moderna. É a recusa de respirar qualquer “ar doce” de boa notícia, uma busca masoquista por informações que confirmem uma visão de mundo cínica e desesperançada.

B. Pesquisa Acadêmica: Dr. Brian Primack[5] (Universidade de Pittsburgh, 2021, JAMA) demonstrou que cada hora adicional de “doomscrolling” diário correlaciona-se com um aumento:

37% aumento no risco de depressão clínica

58% aumento em ansiedade generalizada

Diminuição significativa na capacidade de sentir gratidão

Quantas vezes por dia você deliberadamente busca escândalos e tragédias, não para interceder, mas para confirmar sua visão negativa do mundo? Você está cultivando a disciplina da gratidão, como ordena 1 Tessalonicenses 5:18 (“Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”), ou está marinando em ressentimento?

C. O Burnout Ministerial

A pesquisa do Dr. Thom Rainer (LifeWay, 2020) com pastores revelou que 62% reportam sintomas severos de acídia:

servir com ressentimento, ao invés de alegria

pregar com obrigação, ao invés de paixão

ministrar enquanto secretamente desejam abandonar tudo.

Fundamento Bíblico: Gálatas 6:9 adverte diretamente contra isto:“E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.”

O “desfalecimento” (grego: eklyomenoi) é uma linguagem médica para “dissolvimento”, “liquefação” – exatamente a imagem dos acidiosos dissolvidos na lama de Dante.

CONCLUSÃO: O Antídoto para o Pântano da Alma

A análise é clara e o diagnóstico, sóbrio. A acídia, o burnout espiritual, é a ira que não grita, mas que suspira no fundo da lama. É a tristeza que se ressente da graça. É a teologia correta de Jonas com um coração amargo. É o “doomscrolling” da alma que prefere a escuridão à luz. Qual é a cura? Se a acídia é a recusa em se alegrar com o bem, o antídoto é a disciplina da gratidão.

Se a acídia é o cansaço de fazer o bem, o antídoto é descansar na soberania da graça de Deus, sabendo que é Ele quem dá o crescimento. Se a acídia é a paralisia da vontade, o antídoto é o pequeno ato de obediência, o simples levantar-se da lama.

A imagem final de Dante é a de almas que não conseguem mais articular palavras. Não deixemos que a fumaça da amargura sufoque nossa voz de louvor. Que possamos, pela graça de Deus, rejeitar a tristeza da lama e escolher respirar o “ar doce que do sol se alegra”, o ar vivificante do Espírito Santo, que nos enche não de ressentimento, mas de uma alegria que o mundo não pode dar nem tirar.

Em Colossenses 3:17, todas as nossas ações são conectadas à gratidão: E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” A gratidão não é um evento, mas o pano de fundo de toda a vida cristã. A oração de gratidão é um antidoto contra a Ansiedade: Em Filipenses 4:6-7, a ação de graças é o ingrediente essencial para a paz que excede todo entendimento: Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes, as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças.

 

[1] Exatamente nas mesmas palavras; literalmente, ipsis litteris. que corresponde palavra por palavra à fonte ou texto original.

[2] Um taxonomista é o profissional especializado em taxonomia, a ciência da classificação, identificação, nomeação

[3] Um monge trapista é um membro da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO), também conhecida como Trapistas, que vive uma vida de oração e trabalho manual.

[4] Doomscrolling é o ato de gastar tempo excessivo consumindo notícias negativas e alarmantes nas redes sociais e outras plataformas online. O termo, que combina “doom” (juízo final) e “scrolling” (rolagem)

[5][5] Dr. Brian Primack, da University of Pittsburgh School of Medicine, publicou (2021) no Journal of the American Medical Association

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