Série de sermões expositivos sobre O Céu. Sermão Nº 176 – O sexto dia da criação: a criação do homem (Parte 150). Gn 1:27: a Bíblia versus o Secularismo (Parte 103). Pregação do Pastor Jairo Carvalho em 15/10/2025.
INTRODUÇÃO:
Chegamos agora à dimensão mais insidiosa e teologicamente complexa do Quinto Círculo. Aqui, estão aqueles que não gritam sua ira, mas a sufocam dentro de si até se afogarem em seu próprio ressentimento. Virgílio revela a Dante uma verdade perturbadora: sob a superfície das águas turvas da Estige, há outra categoria de almas – os acidiosos, cujos suspiros fazem a água borbulhar em bolhas de ar fétido.
Verso: “Fixos na lama, diziam: ‘Tristes fomos / no ar doce que do sol se alegra / e respira, carregando dentro / uma fumaça de acres assomos: / agora, na negra lama, nos entristecemos.‘”
- Exegese Teológica da Acídia: A Tristeza Diante do Bem
A. Definição Patrística
A acídia (acedia) é um dos conceitos mais profundos da psicologia espiritual cristã. Para compreendê-la adequadamente, devemos recorrer aos Padres do Deserto do século IV, especialmente a Evágrio Pôntico (345-399 d.C.), que identificou a acídia como o “demônio do meio-dia”.
Evágrio escreveu em “Sobre os Oito Pensamentos Malignos”:
“O demônio da acídia, também chamado demônio do meio-dia, é o mais opressivo de todos os demônios. Ele ataca o monge por volta da quarta hora (10h da manhã) e assedia sua alma até a oitava hora (2h da tarde). Primeiro, faz parecer que o sol se move muito lentamente, ou nem se move, e que o dia tem cinquenta horas. Então, força o monge a olhar constantemente para as janelas, a sair de sua cela, a olhar para o sol para ver quão longe está da nona hora, e a olhar ao redor. Além disso, instila nele ódio pelo lugar, ódio por sua vida mesma, ódio pelo trabalho manual.”
Esta descrição fenomenológica do século IV é surpreendentemente contemporânea, descrevendo o que hoje identificaríamos como burnout espiritual, depressão existencial e anedonia (incapacidade de sentir prazer).
B. Definição Tomista
São Tomás de Aquino (1225-1274), em sua Summa Theologiae (II-II, q.35, a.1), oferece a definição teológica mais precisa da acídia: “Acedia est tristitia de bono divino” – “Acídia é tristeza a respeito de um bem divino”.
Essa definição é devastadoramente precisa. A acídia não é:
Tristeza diante do mal (isso seria indignação justa)
Tristeza diante da perda (isso seria luto natural)
Tristeza diante do sofrimento (isso seria compaixão)
A acídia é uma perversão da tristeza – é tristeza diante do bem, especialmente do bem divino. É a alma que ressente a graça de Deus, que se irrita com a misericórdia divina, que se amargura com a alegria dos outros.
C. Análise Psicológica Contemporânea
Dr. Aaron Beck – fundador da Terapia Cognitivo-Comportamental – , e Dr. Martin Seligman – pioneiro da Psicologia Positiva -, identificariam na acídia o que chamam de “tríade cognitiva negativa”:
- Visão negativa de si mesmo: “Sou inútil, não mereço alegria”
- Visão negativa do mundo: “Nada vale a pena, tudo é vazio”
- Visão negativa do futuro: “Não há esperança, nada vai mudar”
Dr. Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da Logoterapia, descreveria a acídia como “vácuo existencial” – a ausência de sentido que leva ao tédio existencial e ao desespero quieto.
D. Análise Verso a Verso da Confissão dos Acidiosos
“Tristes fomos no ar doce que do sol se alegra“
Exegese Literal:
O “ar doce” (aere dolce) representa a graça universal de Deus, a bondade da criação, o dom da existência mesmo. O “sol” (sol) é, na tradição cristã medieval, símbolo primário de Deus e de Cristo como “Sol da Justiça” (Malaquias 4:2). A frase “que do sol se alegra” (che del sol si ralla) indica que toda a criação natural responde com alegria à presença de Deus. É eco do Salmo 19:1-4:
“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol.”
Análise Psicológica:
Os acidiosos confessam que estavam “tristes” (tristi) no ambiente que deveria produzir alegria. Psicologicamente, isto descreve o fenômeno da anedonia – a incapacidade de sentir prazer ou alegria em situações que normalmente produziriam esses sentimentos. Dr. Andrew Solomon, em “The Noonday Demon: An Atlas of Depression” (2001), descreve precisamente essa experiência:
“A depressão é a ausência de alegria em circunstâncias onde a alegria deveria estar presente. É estar em um jardim florescente e ver apenas cinzas. É ouvir música sublime e sentir apenas barulho. É experimentar amor e sentir apenas peso.”
Aplicação Devocional:
Quantos de nós, irmãos, estamos espiritualmente tristes em meio às bênçãos de Deus? Quantos murmuram apesar da abundância? Quantos estão amargurados mesmo em meio à graça? A acídia contemporânea se manifesta em:
- O cristão que vai à igreja mas sente apenas tédio e obrigação
- O obreiro que serve mas ressente de cada sacrifício
- A pessoa que recebe bênçãos mas só consegue ver o que não tem
“carregando dentro uma fumaça de acres assomos“
nutrindo dentro de nós a fumaça da melancolia.
Exegese Literal:
“Fumaça” (fummo) e “acres assomos” (accidioso fummo no original) descrevem uma poluição interior, um smog da alma, uma toxicidade interna que contamina toda percepção. A imagem é médico-espiritual: assim como fumaça em um ambiente fechado causa asfixia, a amargura interior sufoca a capacidade de respirar a graça de Deus.
Análise Filosófica Existencialista:
Søren Kierkegaard (1813-1855), filósofo existencialista cristão, descreveu em “O Desespero Humano” (1849) algo muito similar:
“O desespero é uma doença do espírito, do eu, e, portanto, pode assumir três formas: desespero de não ser consciente de ter um eu (desespero impróprio); desespero de não querer ser si mesmo; desespero de querer ser si mesmo.”
II. DESVENDANDO KIERKEGAARD: A ANATOMIA DO DESESPERO
- O Diagnóstico Geral: “Uma Doença do Espírito, do Eu” (consciência)
Primeiro, Kierkegaard faz algo radical: ele redefine o desespero. Para ele, desespero não é apenas um sentimento de tristeza ou falta de esperança. Não é o que hoje chamamos de depressão clínica. Uma pessoa pode ser feliz, bem-sucedida e popular e, ainda assim, estar em profundo desespero. Por quê? Porque o desespero é uma doença do “espírito” ou do “eu”. O que é o “Eu” para Kierkegaard? O “eu” (ou o “si mesmo”) não é uma coisa estática. É uma relação. É a relação que um ser humano tem consigo mesmo, como uma síntese de opostos:
– O finito (nosso corpo, nossas limitações, nosso tempo de vida) e o infinito (nossos sonhos, nossa capacidade de imaginar, nossa alma eterna).
– O temporal (o aqui e agora) e o eterno (nossa dimensão espiritual).
– A necessidade (nossas circunstâncias, nosso passado) e a liberdade (nossa capacidade de escolher).
O “espírito” é a consciência dessa relação. Somos o único animal que não apenas é, mas que está ciente de que é e tem que se tornar algo. O que é a “Doença”? A “doença” do desespero é uma falha nessa relação. É um desequilíbrio. É quando o “eu” não consegue se relacionar corretamente consigo mesmo e, crucialmente, falha em se relacionar com o Poder que o criou (Deus). Desespero é uma “des-relação” ou uma “relação errada” dentro do eu. Com isso em mente, as três formas de desespero fazem todo o sentido.
As Três Formas da Doença do Eu
a) Desespero de não ser consciente de ter um eu (O Desespero da Ignorância)
Essa é, para Kierkegaard, a forma mais comum de desespero, o desespero das massas. O que é? É a condição da pessoa que nem sabe que é um “eu” espiritual com uma dimensão eterna. Ela vive uma vida puramente superficial, definida por fatores externos. Sua identidade é seu trabalho, seu status social, sua conta bancária, o que os outros pensam dela, seus prazeres e distrações.
Exemplo Prático: Pense no homem de negócios que é “CEO”, na mulher que é “mãe em tempo integral”, no jovem que é “popular nas redes sociais”. Eles vivem tão imersos nesses papéis que nunca param para se perguntar: “Mas quem sou eu por trás de tudo isso? Quem sou eu diante da eternidade?”. Eles vivem perdidos na “multidão”, fazendo o que “todo mundo faz”.
Por que isso é Desespero? Porque, mesmo que sejam felizes e bem-sucedidos, estão falhando na tarefa mais fundamental da existência humana: tornar-se o “eu” único e eterno que Deus os criou para ser. É um espírito que esqueceu que é espírito, vivendo uma vida inautêntica, como um animal de rebanho.
b). Desespero de não querer ser si mesmo (O Desespero da Fraqueza)
Nesta forma, a pessoa já tem consciência de si, mas ela odeia o “eu” que descobriu. Ela vê suas falhas, seu passado, suas limitações, sua aparência, suas circunstâncias, e não suporta ser essa pessoa. Então, ela tenta desesperadamente escapar de si mesma. O que é? É a recusa do próprio ser concreto. A pessoa olha para si mesma e diz: “Qualquer coisa, menos isso!”.
Exemplo Prático: Isso se manifesta de duas maneiras:
A fuga para o exterior: A pessoa tenta se perder em distrações para não ter que pensar em si mesma. É o viciado em trabalho que usa a carreira para fugir de um casamento infeliz. É a pessoa que pula de um relacionamento para outro, de uma igreja para outra; ou de uma viagem para outra, para nunca ter que enfrentar seu próprio vazio interior.
A fuga para o interior: A pessoa se perde em fantasias. Ela vive em um mundo de “e se…”, imaginando a vida perfeita que poderia ter, o “eu” ideal que gostaria de ser, mas nunca age no mundo real e concreto. Ela está apaixonada por um “eu” de fantasia e despreza seu “eu” real.
Por que é Desespero? Porque é uma rebelião contra a própria identidade que lhe foi dada. É uma recusa em aceitar a si mesmo como tarefa e como dom, com todas as suas falhas e potencialidades.
c). Desespero de querer ser si mesmo (O Desespero da Rebelião)
Esta é a forma mais intensa e, para Kierkegaard, “demoníaca” de desespero. Parece um paradoxo, mas é a chave de tudo. O que é? A pessoa aqui não apenas está ciente de si mesma, mas abraça seu “eu” com todas as forças. Ela ama sua singularidade, seus talentos, até mesmo seu sofrimento. O problema é que ela quer ser este “eu” por si mesma e para si mesma. Ela quer ser seu próprio criador, seu próprio mestre, a única fonte de seu próprio significado.
Exemplo Prático: É a mentalidade do “self-made man[1]” levada ao extremo. É o artista que idolatra seu próprio gênio. É a pessoa que, em seu sofrimento, diz: “Eu não preciso de Deus nem de ninguém, eu sou definido pela minha dor e pela minha força em suportá-la”. É o orgulho titânico de querer ser o fundamento de sua própria existência. A frase “Eu sou o mestre do meu destino, o capitão da minha alma” é a expressão perfeita deste desespero.
Por que isso é Desespero? Porque é uma mentira ontológica. Um ser criado não pode ser sua própria fundação. É como uma onda tentando ser sua própria fonte, esquecendo-se do oceano. Ao se recusar a se relacionar com o Poder que a criou (Deus), a alma fica suspensa sobre um abismo, em um estado de pura rebelião e, portanto, de profunda “des-relação” e desespero.
- A Cura para a “Doença Mortal”
Para Kierkegaard, o oposto do desespero não é a felicidade, mas a Fé. A fé é o ato pelo qual o “eu”, reconhecendo todas as suas partes (finita, infinita, temporal, eterna), para de lutar consigo mesmo e se baseia de forma transparente no Poder que o criou. É aceitar ser a criatura que você é, com todas as suas falhas, e ao mesmo tempo encontrar seu fundamento, seu significado e sua identidade no Criador. É a única maneira de curar a “doença do espírito”. A acídia de Dante corresponde ao segundo tipo de desespero kierkegaardiano – o desespero de não querer ser si mesmo, a recusa da própria identidade como criatura de um Deus bom.
Análise Psiquiátrica:
Dr. Kay Redfield Jamison, psiquiatra da Johns Hopkins University e autora de “An Unquiet Mind” (1995), descreve o fenômeno do “encarceramento cognitivo” em depressão severa:
“A depressão constrói uma prisão de pensamentos ao redor da mente. Cada pensamento reforça as grades. A pessoa não consegue ver além da fumaça tóxica de suas próprias ruminações negativas.”
Fundamento Bíblico:
Esta “fumaça interior” encontra paralelo direto em Provérbios 14:10:
“O coração conhece a sua própria amargura, e o estranho não se entremeterá na sua alegria.”
E em Provérbios 17:22:
“O coração alegre serve de bom remédio, mas o espírito abatido virá a secar os ossos.”
A “fumaça” dos acidiosos seca literalmente seus ossos – eles estão murchos, desidratados, sem vida, mesmo estando submersos em água.
CONCLUSÃO:
O apostolo Paulo dá uma receita perfeita para um viver, livre da acídia, livre da depressão e da melancolia, do ressentimento, da tristeza.
Filipenses 4:4-8
⁴ Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos.
⁵ Seja a vossa equidade notória a todos os homens. Perto está o Senhor.
⁶ Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças.
⁷ E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
⁸ Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.
[1] Um “self-made man” (homem que se fez sozinho) é um indivíduo que alcançou sucesso, riqueza ou prestígio por meio do próprio esforço, talento e determinação, sem apoio significativo de heranças ou contatos externos.
