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OCÉU173: A Bíblia versus o Secularismo – PARTE 100

Série de sermões expositivos sobre O Céu. Sermão Nº 173  –  O sexto dia da criação: a criação do homem (Parte 147).  Gn 1:27: a Bíblia versus o Secularismo (Parte 100). Pregação do Pastor Jairo Carvalho em 17/09/2025.

INTRODUÇÃO:

Continuando nossa exposição sobre o romance de Dante (A Divina Comédia), chegamos ao Quinto Ciclo do Inferno.  Dante inicia este ciclo dizendo: “Agora vamos descer rumo a uma desgraça maior”. O objetivo dele é mostrar os horrores dos castigos dos pecadores.

Iniciaremos essa grande exposição do Quinto Ciclo com Dante e Virgílio, o seu Guia, nas Águas Turvas da Estige até às Muralhas de Dite. Veremos um dos espetáculos mais aterrorizantes e, paradoxalmente, mais instrutivos de toda a jornada dantesca – as águas pestilentes da laguna Estige.  Aqui, almas consumidas pela ira se dilaceram eternamente enquanto outras, afundadas na acídia[1], gorgoleiam sob a superfície, incapazes sequer de articular seu sofrimento.

Este não é um estudo meramente literário. É um espelho que Deus coloca diante de nossas almas para nos mostrar o destino final da ira não controlada e da apatia espiritual.  É uma radiografia da condição humana sem a graça transformadora de Jesus Cristo. Quando o apóstolo Paulo nos adverte em Efésios 4:26-27, ele nos dá um mandamento claro: “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo.” Ele está nos alertando exatamente para o destino que Dante nos apresenta no Quinto Círculo.

A ira que se cristaliza em rancor permanente e a acídia que paralisa a alma em indiferença espiritual são portas abertas através das quais Satanás entra para estabelecer sua residência em nossos corações. Vamos mergulhar verso por verso nesta descida, como peregrinos que reconhecem em cada alma atormentada um reflexo de nossos próprios perigos espirituais.

I. A DESCIDA E A GEOGRAFIA DO RANCOR.

  1. A Geografia Moral da Descida e a Estagnação Espiritual

A jornada da alma para longe de Deus é sempre para baixo, para uma “miséria mais negregada”, uma escuridão que não é apenas ausência de luz, mas uma presença ativa e sufocante.  Dante nos guia ao longo de uma fonte de água pervertida e que “ferve” com a fúria do inferno e, crucialmente, não flui para um rio de resolução, mas encontra sua “paragem”, seu fim, em um fosso estagnado. Filosoficamente, esta é a imagem da estagnação espiritual. A água, símbolo universal da vida e da graça — a “fonte de água viva” que Cristo promete em João 4:14[2] —, quando represada, apodrece.  A alma dominada pela ira é exatamente isso: um lugar onde o fluxo da caridade, do perdão e da razão foi interrompido.

Dante está nos apresentando a paisagem interior do rancor. Ele não está apenas descrevendo um lugar. Ele está pintando um retrato da psicologia do rancor. A “fonte que ferve” é a memória da injúria original. Psicologicamente, o ressentimento, que vem do latim re-sentire (“sentir de novo”), é exatamente isso: uma fonte fervente na alma que nunca esfria. É a ruminação incessante da ofensa, o ato de tocar a ferida repetidamente para se certificar de que ela ainda dói, mantendo a raiva viva e borbulhante. Essa fonte, porém, deságua em um fosso onde encontra sua “paragem”. Aqui, Dante nos dá a chave da psicologia do rancor: ele é a emoção que se recusa a fluir. É a dor que escolhemos represar.

Enquanto emoções saudáveis, mesmo a raiva justa, nos atravessam e são processadas, o ressentimento é a decisão de se agarrar à dor. Essa estagnação emocional é o que faz a alma apodrecer. É por isso que a água é “mais escura que o anil”. Psicologicamente, esta é a amargura. A amargura é o ressentimento que se calcificou e transbordou, manchando toda a percepção. A pessoa amarga já não consegue ver o mundo com clareza. Tudo é filtrado por essa lente escura de cinismo e desconfiança. Consequentemente, ela emite uma “aragem sombria” e seu caminho se torna “hostil”.

Este é o impacto interpessoal do rancor. A pessoa amarga cria um campo de força de negatividade ao seu redor, onde o diálogo se torna um “caminho hostil”. Tudo isso culmina na imagem do “pântano, que tem o nome de Estige“. A referência mitológica ao rio do ódio inviolável é transformada. O pântano é a metáfora perfeita para a mente consumida pelo rancor. É um ecossistema mental improdutivo, onde a alegria, a criatividade e o amor são sufocados. A alma deixa de ser um jardim e se torna um charco de autopiedade e ódio estagnado.

Pense em uma igreja, família ou empresa envenenada por um conflito antigo. A comunicação cessa, o ambiente torna-se tóxico. É um “pântano” relacional.

Biblicamente, lembra-nos das águas amargas de Mara, como lemos em Êxodo 15:23: “E chegaram a Mara, mas não puderam beber das águas de Mará, porque eram amargas; por isso chamou-se o seu nome Mara.” A murmuração e o ressentimento — as águas ferventes da alma que se recusam a fluir — tornam amargas as águas que deveriam dar vida.

  1. A Ira Exteriorizada: Os que se Dilaceram na Superfície (vv. 110-116)

Após navegarmos pela geografia estagnada do pântano, Virgílio direciona o olhar de Dante, e o nosso, para a manifestação visível do pecado que habita estas águas. Aqui, Dante nos oferece uma das mais terríveis e clinicamente precisas descrições da alma consumida pela raiva.

E eu, que para mirar estava atento, vi gente na lama imersa, em turba que se fustiga, toda nua e com semblante de ressentimento. Batiam-se não só com as mãos, mas com a cabeça, com o peito e com os pés, num violento tormento, rasgando-se aos pedaços com os dentes, sem que se impeça.”

Vamos, como anatomistas da alma, dissecar cada detalhe desta visão.

a) A Fusão com o Pecado: “Gente na lama imersa”

A primeira observação de Dante é a fusão do pecador com o seu ambiente. Eles não estão sobre a lama. Estão “imersos” nela. A lama não é apenas o seu castigo. Ela se tornou o seu elemento – o seu habitat. Psicologicamente, esta é a descrição de um estado de fusão emocional. A pessoa dominada pela ira perde a capacidade de se distinguir da sua própria emoção.  Ela não sente raiva. Ela é a raiva. Perde-se a perspectiva, a capacidade de observar o sentimento de fora. A alma “afunda” no pântano de sua própria fúria, e toda a sua percepção da realidade fica turva e suja.

Psiquiatricamente, isto espelha a experiência subjetiva de quem sofre de transtornos graves de humor ou de personalidade. Há uma sensação crônica de estar “atolado” ou “preso” em um estado emocional negativo, uma lama da qual não se consegue sair. Teologicamente, a lama representa a matéria primordial sem a forma do Espírito. A ira os arrasta para baixo, para longe do espírito e para perto do caos material. Biblicamente, a imagem de estar atolado na lama é um dos mais poderosos símbolos do desespero e do pecado. O salmista clama no Salmo 40:2:

Tirou-me de um lago horrível, de um charco de lodo; pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos.” Os Iracundos são aqueles que nunca foram tirados do charco de lodo; eles escolheram fazer dele sua morada eterna.

b) A Perversão da Comunidade: “em turba que se fustiga”

Eles não sofrem sozinhos; estão em uma “turba”, uma multidão caótica, que “se fustiga”, que se ataca mutuamente. Psicologicamente, aqui Dante descreve a psicologia da turba. Um indivíduo em uma multidão irada perde o senso de responsabilidade pessoal e é contagiado pela paixão coletiva. A raiva é socialmente contagiante. Vemos isso hoje nas turbas online, nos linchamentos virtuais, onde a fúria de um alimenta a do outro em um ciclo de violência crescente. Teologicamente, esta é a imagem da anti-igreja, a anticomunidade. A Igreja, o Corpo de Cristo, foi criada para a edificação mútua, para o amor e o suporte. A “turba” dos iracundos é o corpo de Satanás, uma comunidade unida não pelo amor, mas pelo ódio, existindo apenas para a mútua destruição.

c) A Nudez da Alma Bestial: “toda nua e com semblante de ressentimento”

A nudez aqui não é a da inocência, mas a da privação absoluta. Eles foram despidos de tudo o que constitui uma pessoa civilizada: a razão, a dignidade, o autocontrole, a compaixão. Teologicamente, é a Imago Dei, a imagem de Deus, sendo radicalmente desfigurada e exposta em sua vulnerabilidade pecaminosa. É a antítese da exortação de Paulo em Gálatas 3:27 para que sejamos “revestidos de Cristo”. Eles, ao contrário, foram despidos de tudo, revelando a besta interior. O rosto deles está congelado em um “semblante de ressentimento”. O rosto, a janela da alma, tornou-se uma máscara permanente de amargura.

Psiquiatricamente, isso aponta para a irritabilidade crônica e o afeto negativo que servem de linha de base para muitos transtornos de controle de impulsos. Biblicamente, este é o rosto de Caim antes de cometer o primeiro assassinato. Deus o confronta diretamente em Gênesis 4:6: “E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante?” A face caída, o semblante de ressentimento, é o primeiro e mais visível sintoma de um coração que está se voltando para a violência.

  1. A Anatomia da Violência Total: Das Mãos aos Dentes

A descrição da violência é uma crescente de desumanização. Eles se batiam “não só com as mãos, mas com a cabeça, com o peito e com os pés”, culminando no ato de “rasgando-se aos pedaços com os dentes”.

Psiquiatricamente, esta é a imagem poética de uma falha total no controle dos impulsos, a manifestação de um Transtorno Explosivo Intermitente (TEI) em sua forma mais pura e eterna.

A violência é total, irracional e desproporcional.

Neurobiologicamente, é o “sequestro da amígdala[3]” em estado permanente, onde o córtex pré-frontal, a sede da razão e do juízo, foi completamente desligado.

Psicologicamente, a progressão das armas — das mãos (ferramentas humanas) para os dentes (armas bestiais) — simboliza uma regressão completa ao estado mais primitivo. A alma abdicou de sua humanidade.

O ato de “rasgar-se” (dirozzavan coi denti) é crucial: a ira é tão cega que é autodestrutiva ao mesmo tempo que é destrutiva para o outro.

A pessoa irada destrói seus relacionamentos, sua carreira, sua paz e, no fim, a si mesma, na tentativa de ferir o alvo de sua raiva.

Biblicamente, esta é a imagem da terra antes do Dilúvio, como descrita em Gênesis 6:11: “A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência.”

É a personificação do que o apóstolo Tiago adverte sobre a língua (que comanda a boca e os dentes) em Tiago 3:6:”A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.”

 A boca dos iracundos, que em vida proferiu palavras que inflamaram o mundo, agora, inflamada pelo inferno, usa os dentes para se destruir. Devocionalmente, a lição é um chamado à vigilância radical do coração e à compaixão. Quando a ira sobe, devemos reconhecer os sintomas: a sensação de estar “imerso”, o endurecimento do “semblante”, o desejo de “atacar”. E, com a ajuda do Espírito Santo, cujo fruto é o domínio próprio (Gálatas 5:23), devemos lutar para não sermos despidos de nossa humanidade, mas para sermos, a cada dia, mais revestidos da imagem de Cristo.

[1] Em Dante, o termo “acídia” ou “acedia” é um dos sete pecados capitais, representando uma apatia espiritual, uma tristeza profunda e desânimo em relação à fé e ao bem. O conceito de acídia, originado do grego “akēdía” (falta de cuidado), manifesta-se na negligência das responsabilidades espirituais, um desinteresse pelas coisas divinas e uma aversão ao esforço necessário para crescer na vida cristã, sendo-o um estado de desânimo perante a grandeza das exigências espirituais.

[2] João 4.14 Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.

[3]  sequestro da amígdala é uma reação emocional intensa e instantânea em que a amígdala, o “radar de perigo” do cérebro, assume o controle, bloqueando a lógica e provocando uma resposta de luta ou fuga. Esse fenómeno, descrito por Daniel Goleman em Inteligência Emocional, ocorre quando uma ameaça percebida desencadeia uma resposta desproporcional, levando a comportamentos impulsivos e à perda da capacidade de raciocínio. 

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