Série de sermões expositivos sobre O Céu. Sermão Nº 172 – O sexto dia da criação: a criação do homem (Parte 146). Gn 1:27: a Bíblia versus o Secularismo (Parte 99). Pregação do Pastor Jairo Carvalho em 10/09/2025.
INTRODUÇÃO:
Das garras do caos à esfera da providência: grande instrução de Virgílio que dará: A Aula Magna do Inferno.
Providencialmente, a mais de 700 anos aqui no coração do Brasil, chegamos ao que pode ser considerado o centro gravitacional teológico de todo o Inferno dantesco (Canto VII, 73-96). É o momento em que a jornada deixa de ser uma mera observação das punições para se tornar uma aula magna sobre a própria estrutura da realidade divina. Diante do grito de Dante – que é o grito de toda alma humana que sofre sem compreender – Virgílio não oferece um consolo barato ou uma explicação simplória, mas uma revelação que abala os fundamentos do nosso entendimento sobre Deus, o mundo e nós mesmos.
Vamos seguindo nosso propósito comum, que é o de dissecar essa revelação de forma exaustiva e definitiva. Cada linha será nossa guia exegética. Cada palavra, um portal teológico. Mergulharemos simultaneamente nas dimensões bíblica, sistemática, pastoral, devocional e prática para extrair toda a sabedoria divina contida nesta passagem magistral.
Preparem o espírito, pois estamos prestes a ser elevados das “garras” do medo existencial à contemplação da “esfera” da fé que adora em meio ao mistério.
PRIMEIRO MOVIMENTO: O grito humano diante do mistério da Providência
- A Pergunta que Ecoa Através dos Séculos
Nossa reflexão começa com a pergunta que define a condição humana diante do mistério. Após ver a futilidade dos bens, Dante se volta ao Mestre e clama: “esta Fortuna que mencionas, quem é ela, que os bens do mundo tem em suas garras?”. A pergunta “quem é ela?” é a questão ontológica fundamental. Este grito ecoa poderosamente através das Escrituras, na voz de Jó (21:7), que pergunta: “Por que vivem os ímpios, envelhecem e ainda se robustecem em poder?”. Na angústia do salmista Asafe, que confessa no Salmo 73:3-5: “Pois eu tinha inveja dos soberbos, ao ver a prosperidade dos ímpios…”. E no lamento do profeta Habacuque (1:13), que clama: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal… por que te calas?”.
Devocionalmente, entendemos que a fé verdadeira não começa com respostas prontas, mas com perguntas honestas, nascidas da angústia. É o momento da crise epistemológica que precede toda verdadeira conversão. Reconhecemos esta como a pergunta que fazemos quando perdemos o emprego enquanto corruptos prosperam, ou quando enfrentamos a doença enquanto ímpios gozam de saúde.
- A Metáfora das “Garras”: Filosofia Pagã vs. Revelação Cristã
A imagem das “garras” revela o estado da alma natural. Filosoficamente, é a personificação da visão greco-romana da Fortuna ou Tykhe – uma força predatória, violenta e amoral. Teologicamente, ela não representa uma força irracional com “garras”, Dante não descreve um poder que compete com a soberania absoluta de Deus, um aparente dualismo Virgílio irá demolir. Biblicamente, é o grito pré-revelacional que encontramos em Eclesiastes 9:11, que nos diz que “o tempo e o acaso sobrevêm a todos”, ou no Salmo 77:7-9, que pergunta em desespero: “esqueceu-se Deus de ter misericórdia?”.
SEGUNDO MOVIMENTO: A Repreensão Pedagógica e a Revelação Cósmica
- A Repreensão Divina: “Ó Criaturas Tolas”
A resposta de Virgílio não é um consolo, mas uma correção: “Ó criaturas tolas, quanta ignorância é esta que vos ofende! Quero que minhas palavras agora acolhas“. A tolice aqui é a ignorância culpável, a recusa de aceitar a realidade como Deus a constituiu, ecoando o néscio do Salmo[1] 14:1 “Diz o nécio (tolo) em seu coração não há Deus”. O choque da repreensão é pedagogicamente necessário. Virgílio deve destruir nossa visão de mundo caótica antes de revelar a ordem divina como a Palavra da Cruz de 1 Coríntios 1:18, que é “loucura para os que perecem”.
- A Grande Analogia Cósmica: Do Conhecimento ao Desconhecimento
Virgílio emprega o método escolástico da analogia, partindo do conhecido para o desconhecido. Ele começa com “Aquele cujo saber tudo transcende“, o que é uma definição teológica perfeita do Deus da revelação: onisciente, transcendente e imanente, cujo entendimento, como diz o Salmo 147:5, “não se pode medir“. Este Deus “fez os céus e lhes deu quem os guiasse”, estabelecendo uma providência mediada por hierarquias angélicas, pois Ele não abandona Sua criação. A imagem da harmonia universal, onde “cada parte a cada parte esplende”, mostra um universo de perfeita coordenação, onde a beleza reflete a verdade. Se Deus é tão meticuloso com a órbita dos planetas, seria filosoficamente inconsistente que Ele deixasse a história humana ao acaso.
- A Revelação Central: A Providência nos Assuntos Terrenos
A palavra-chave “Semelhantemente” é o pivô lógico de toda a revelação. É o princípio da analogia ontológica: SE Deus governa os céus com ordem, ENTÃO Ele governa a terra com ordem. Para os “esplendores mundanos“, Ele “ordenou uma Ministra da Providência e guia geral“. Esta é a revolução conceitual: a Fortuna é redefinida, de deusa pagã a funcionária divina, de força caótica a agente da ordem, de poder arbitrário a ministério sob autoridade. Esta visão encontra seu fundamento bíblico em Daniel 4:17: “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens”; e em Romanos 13:1: “não há autoridade que não venha de Deus”.
TERCEIRO MOVIMENTO: A Função Misteriosa da Ministra Divina
- A Teologia da Permutação Histórica
Virgílio agora detalha o modus operandi desta Administradora. Sua função é “permutasse no tempo os bens vãos”. “Li ben vani” não significa que a riqueza seja má, mas que todos os bens terrenos são transitórios, de valor relativo, e nossa posse sobre eles é uma administração temporária, não uma propriedade absoluta, um eco de 1 Timóteo 6:7 e Eclesiastes 2:26. A escala de sua operação é geopolítica e dinástica, transferindo poder “de gente em gente, e de um a outro sangue”, como ensina Daniel 2:21: “Ele remove os reis e estabelece os reis”; e 1 Samuel 2:7-8: “O SENHOR empobrece e enriquece”.
- A Epistemologia da Humildade
A operação da Providência ocorre “para além da defesa dos saberes humanos“. Esta linha contém uma crítica devastadora à autossuficiência da razão. Nossa sabedoria constrói “fortalezas” de planejamento econômico e estratégias políticas, mas a Providência é imune a essas defesas, operando em uma dimensão de causalidade superior, como nos adverte Provérbios 19:21: “Muitos propósitos há no coração do homem, mas o conselho do SENHOR permanecerá”.
- A Soberania Oculta: “Como na erva a cobra que se expande”
É por isso que “um povo impera e outro langue“, não por acaso, mas seguindo o “julgamento desta“, uma lógica que nos é “oculta como na erva a cobra”. A metáfora da cobra aqui não simboliza o demônio, mas um poder natural, imanente, invisível até o momento crucial e de eficácia definitiva. Teologicamente, é o Deus Absconditus, o Deus Oculto de Isaías 45:15[2]: “ainda que tu não me conheças”.
Isso nos ensina que a razão pela qual impérios colapsam, como Babilônia (100 anos), Medo-Persa (220 anos), Grécia (190 anos), Roma (500), Império Bizantino (1000 anos), Inglaterra (300 anos), EUA (100 anos). As riquezas saíram do Hemisfério Norte, agora se distribuem no Hemisfério Sul. Isso porque a “cobra na erva” (providencia oculta) estava operando através de causas secundárias que os “analistas humanos” não puderam detectar.
QUARTO MOVIMENTO: A Soberania Absoluta e a Beatitude Eterna
- A Declaração de Soberania e a Tríplice Função Providencial
Chegamos ao ápice da revelação. A soberania da Providência é absoluta: “Vosso saber não pode se opor a ela“. Esta é a declaração da incompetência da razão humana diante do divino, como nos adverte 1 Coríntios 1:19, que é uma citação de Isaías 29:14: “Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes.” Ela “prevê, julga, e mantém seu reino”. Esta é sua tríplice função: a previsão de sua presciência perfeita; o julgamento de sua justiça distributiva; e a manutenção de seu reino, garantindo a estabilidade cósmica. E tudo isso ocorre não como um fardo, mas como uma “divina festa”, uma celebração da sabedoria de Deus.
- A Dinâmica Incansável e a Ingratidão Humana
A história se move de forma incansável — “não têm trégua nem freio” — e “veloz”, movida pela necessidade interna do plano divino. Diante desta força soberana, a reação humana é a ingratidão universal. Virgílio diz que nós a “pomos na cruz”, culpando Deus por nossas dificuldades, quando deveríamos Lhe dar louvor, como os nove leprosos ingratos de Lucas 17:17-18. Nossa queixa brota da mesma raiz descrita em Romanos 1:21: “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”.
- O Clímax Sublime: A Beatitude Imperturbável
E então, a visão final: “mas ela é bem-aventurada e não ouve tal clamor: com as outras primeiras criaturas, alegre, gira sua esfera e goza em seu beato fulgor.” Esta é uma das declarações mais sublimes sobre a beatitude divina. “Bem-aventurada” porque sua felicidade é perfeita e imutável. “Não ouve” não por indiferença, mas porque habita um plano ontológico superior, como o Deus de Isaías 57:15, “o Alto e o Sublime”. E o mais chocante: ela é “alegre” (lieta) e “goza em seu beato fulgor“. A Providência deleita-se na execução dos sábios decretos de Deus[3]. A implicação devastadora e consoladora é que, mesmo nos eventos que nos causam dor máxima, o agente providencial opera a partir de alegria perfeita, pois vê o resultado final que nós não podemos ver.
- Implicações para a Nossa Caminhada
Essa doutrina não é um mero exercício intelectual. Ela deve transformar nossas vidas. Para o crente em tempos de prosperidade, ela é um chamado ao reconhecimento da Fonte, à gratidão e à mordomia fiel. Para o crente em tempos de adversidade, é um chamado à confiança na soberania de Deus, à busca de crescimento espiritual e à manutenção da esperança bíblica, fundamentada em Romanos 8:28[4]: “todas as coisas contribuem juntamente para o bem…”. E para a comunidade da fé, esse é um chamado ao apoio mútuo, ao ensino equilibrado e a uma visão providencial da missão global.
- Aplicações Devocionais Específicas
Essa doutrina deve se tornar oração. Que nossa Oração Matinal seja: “Ó Deus, cujo saber tudo transcende, em vez de defender-me com minha sabedoria limitada, escolho confiar na Tua providência que ‘prevê, julga e mantém seu reino’. Que eu possa participar da alegria de cumprir Tua vontade. Amém.”
Que nosso Exame de Consciência Noturno inclua a pergunta: “Em que momentos hoje tentei me opor à Tua providência? Fui grato ou ‘pus na cruz’ a Tua mão em minha vida?”. E que nossa Meditação Semanal seja contemplar os eventos recentes através das “lentes” da providência, perguntando: “Como vejo a ‘cobra na erva’ de Deus operando aqui?”.
CONCLUSÃO: Da Ansiedade à Adoração
Essa jornada exaustiva nos arrastou para fora de nossa pequena cela de medo existencial e nos colocou no topo de uma montanha teológica. Começamos com o grito humano contra as “garras” do caos. Fomos repreendidos por nossa “ignorância”. Fomos apresentados à ordem cósmica, confrontados com um juízo oculto “como a cobra na erva”, e, finalmente, convidados a contemplar a imagem sublime de uma ministra divina alegre.
O convite final deste sermão não é para uma compreensão completa, mas para uma rendição adoradora. É um chamado para abandonar a ansiedade do controle e a queixa como resposta padrão, e abraçar a adoração, a confiança radical e a participação jubilosa na “festa divina” da providência.
É a escolha de acreditar que, por trás da aparente desordem de nossas vidas, uma Providência Ministra Bem-Aventurada está, alegremente, girando sua esfera em perfeita harmonia com o amor e a sabedoria de Deus.Que possamos sair daqui hoje não com todas as respostas que nossa razão deseja, mas com a paz que excede todo entendimento, a paz que vem de confiar Naquele que nos revelou o suficiente para caminharmos pela fé, como nos promete a Escritura em Romanos 16:25-27:
“Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora… ao único Deus sábio seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém.”
[1] Diz o tolo no seu coração: “Não há Deus”. Eles se corromperam e cometeram injustiças detestáveis; não há ninguém que faça o bem.
[2] ⁵ Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças; Isaías 45:5
[3] ³³ Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!
³⁴ Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?
³⁵ Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?
³⁶ Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.
Romanos 11:33-36
[4] ²⁸ E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Romanos 8:28
