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#OCÉU171: A Bíblia versus o Secularismo – PARTE 98

Série de sermões expositivos sobre O Céu. Sermão Nº 171  –  O sexto dia da criação: a criação do homem (Parte 145).  Gn 1:27: a Bíblia versus o Secularismo (Parte 98). Pregação do Pastor Jairo Carvalho em 03/09/2025.

INTRODUÇÃO: 

Continuando a jornada de Dante, no quarto ciclo do inferno da sua obra “A Divina Comédia”, vamos ver a anatomia do pecado e o juízo divino. Este não é apenas um estudo sobre um poema de 700 anos. É um espelho. É um diagnóstico preciso da alma na era da performance, da curiosidade julgadora e da ansiedade material. Vamos agora mergulhar neste texto, vendo como o Espírito Santo dotou Dante de genialidade poética e profética. Dante foi um dos maiores profetas do seu tempo para confrontar a corrupção do pecado.

Dante mostra a tragédia da perda da identidade e a desconfiguração total do ser que o pecado causa no ser humano. Este poema é um aviso solene para uma geração idólatra com a aparência, na busca desenfreada por reconhecimento e autoavaliação.

  1. A consequência ontologia[1] do pecado (Versos 52-66)

É aqui que Virgílio responde à pergunta de Dante, não apenas identificando os pecadores, mas explicando a terrível consequência de seu pecado: a perda da própria essência.  Em resumo, a ideia central é: o pecado deles foi tão grave que não apenas os condenou, mas apagou a identidade deles, mudando a própria natureza de quem eles eram.

52-54: “Estes foram clérigos, que não têm cobertura / de cabelo na cabeça, e papas e cardeais, / em quem a avareza exerce sua usura.”

A resposta de Virgílio é imediata e brutal. A identificação dos “clérigos, papas e cardeais” é, academicamente, um ato de coragem profética sem precedentes. Em uma era de poder papal absoluto, Dante, um leigo exilado, ousa colocar os mais altos príncipes da igreja no inferno pelo mais sórdido dos pecados. Teologicamente, esta passagem é a mais potente ilustração do princípio Corruptio Optimi Pessima – a corrupção do melhor é a pior de todas.

A avareza, que já é um vício, torna-se uma “usura” espiritual, uma blasfêmia, quando praticada por aqueles consagrados para representar Cristo, que alerta contra o perigo das riquezas. A usura é o pecado de lucrar com a necessidade do outro. A avareza clerical é, portanto, um lucrar com a necessidade espiritual do rebanho, a mais vil das e profunda das traições.

  1. A Sede pelo rosto do pecador: O Julgamento como Fuga de Si Mesmo

55-57: “E eu: ‘Mestre, entre estes tais, / eu deveria bem reconhecer / alguns que foram por tais males imundos’.”

A reação de Dante aqui não é apenas a de um peregrino medieval; é a nossa reação. É o reflexo exato da mente humana moderna que, diante da abstração do mal, anseia desesperadamente pelo concreto, pelo pessoal. Psicologicamente, este é o desejo primordial pelo específico, pela fofoca, pelo escândalo. Não nos contentamos em saber que a corrupção existe. Queremos os nomes, os rostos. Queremos a foto, o vídeo, o CPF do corrupto.

O pecado anônimo nos perturba. O pecado com um rosto nos fascina e nos dá uma falsa sensação de controle. Praticamente, é exatamente assim que consumimos as notícias hoje: devoramos os detalhes do último escândalo, não apenas por um senso de justiça, mas por uma curiosidade quase predatória. Queremos saber “quem” para que possamos julgar, para que possamos nos sentir moralmente superiores, para que possamos dizer: “Eu não sou como eles”.

Dante representa aqui a nossa sede por um conhecimento que identifica e cataloga, um conhecimento que ainda não compreende a profundidade do que o pecado realmente faz à nossa identidade.  A mente dele, como a nossa, ainda opera na lógica do mundo, que é a lógica da fama e da infâmia. Um nome, um rosto, tem poder. Ser reconhecido, mesmo que pela imundície, é uma forma de existir neste mundo. Dante ainda não entendeu o que Virgílio está prestes a lhe ensinar: que o verdadeiro horror deste inferno não é a infâmia, mas o completo apagamento do nome e do rosto, a aniquilação da identidade.

Biblicamente, a pergunta de Dante é o eco exato da curiosidade dos discípulos que perguntam a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvam?” (Lucas 13:23). É uma pergunta que parece espiritual, mas em sua raiz é uma tentativa de desviar o foco. Jesus, em Sua sabedoria infinita, não responde à pergunta. Ele a devolve ao indivíduo: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. Em outras palavras: “Não se preocupe com quantos são os outros; preocupe-se com a sua própria alma”. A pergunta de Dante, assim como a dos discípulos, é uma perigosa fuga espiritual: ela desvia o foco do “o que” (a natureza do pecado em mim) para o “quem” (a identidade do pecador lá fora). Desvia o foco da autoanálise para o julgamento dos outros.

Devocionalmente, este terceto é um espelho que nos força a questionar a natureza de nossa própria curiosidade. Quando lemos sobre o erro de outra pessoa — seja pastor, político, uma celebridade ou um vizinho —, qual é a nossa primeira reação? É uma compaixão que nos leva à oração e à autoanálise, ou uma curiosidade julgadora que nos leva ao pedestal da autojustificação? A pergunta de Dante nos alerta: o desejo de “reconhecer” o pecador pode ser o primeiro passo para nos tornarmos cegos ao pecado que habita em nós.

  1. O Eclipse da Alma: A Fama, os Likes e a Perda do Rosto no Inferno

58-60: “E ele a mim: ‘Em vão reúnes tal parecer: / a vida sem discernimento que os fez sórdidos, / a todo conhecimento agora os torna escuros.’”

A resposta de Virgílio a Dante é um dos pontos filosóficos e teológicos mais importantes de todo o Inferno, ela ressoa como um trovão em nossa cultura da visibilidade. O pensamento de Dante é “vão” porque ele comete o erro primordial da nossa era: ele aplica uma epistemologia terrena — o reconhecimento facial, a fama, a notoriedade — a uma realidade espiritual, onde a única identidade que importa é a que se tem aos olhos de Deus. A frase-chave, “la sconoscente vita” (a vida sem discernimento), é o diagnóstico preciso da pandemia espiritual da performance. Não se trata de uma ignorância passiva; é o motor ativo da destruição da identidade.

Em nosso contexto, a “vida sem discernimento” é a vida vivida para o algoritmo, para o feed, para o olhar dos outros. É a existência que não discerne mais entre o ser autêntico e a persona projetada, entre o que se é e o que gera engajamento.  É um modo de vida que ativamente desfaz a alma, pois prioriza a embalagem em detrimento do conteúdo. Essa vida os tornou “sórdidos”. A alma deles ficou suja por dentro, em sua essência. No contexto moderno, essa “sujeira” é a mancha da inautenticidade.  É a alma que se torna transacional, que se vende por likes, que calibra suas opiniões e sua aparência não pela verdade, mas pela aceitação.

Cada postagem calculada, cada foto filtrada, cada opinião silenciada por medo do cancelamento, é uma camada de sujeira que se acumula sobre a essência do ser. Como resultado, eles se tornaram “escuros” (bruni). Aqui, reside o grande paradoxo da riqueza, da fama e o contrapasso da era digital. Eles buscaram incessantemente ser vistos, ser um ponto de luz no feed infinito, mas, nesse processo, perderam seu brilho interior. A luz de Deus não conseguia mais brilhar através deles. A alma, que deveria ser um vitral refletindo a luz divina, tornou-se opaca, uma tela preta. O brilho ofuscante da persona online criou uma sombra tão densa que o verdadeiro eu, a alma, ficou na escuridão total.

No fim, ficaram irreconhecíveis, perdendo completamente quem realmente eram. Eles se tornaram seu próprio avatar, seu perfil curado. Biblicamente, eles são a encarnação da advertência de Cristo em Mateus 6:23: “Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Portanto, se a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!”. A luz da fama e da validação externa, quando se torna o foco da vida, transforma-se na mais profunda escuridão interior. Devocionalmente, a pergunta de Virgílio nos força a um exame de consciência brutal e necessário: Para quem estamos vivendo? Para o olhar de Deus ou para o feed de rolagem infinita? Estamos cultivando uma alma ou apenas curando um perfil?

A busca desesperada por sermos conhecidos por milhões não estaria nos tornando “escuros” e irreconhecíveis para a única pessoa que importa — nós mesmos — e para o único Olhar que nos define — o de Deus? No Juízo Final, quando a contagem de seguidores for zero e os likes se evaporarem, que rosto teremos para apresentar? Ou seremos apenas mais uma sombra anônima na multidão, eternamente irreconhecíveis.

  1. O Corpo como Epitáfio e a Perda do Mundo Belo: A Consequência Final da Alma Materialista

61-63: “Eternamente virão aos dois choques: / estes ressurgirão do sepulcro com o punho fechado, / e estes, com os cabelos cortados, em seus remoques.”

A palavra inicial, “Eternamente”, sela o diagnóstico em um estado imutável. E, então, Virgílio mobiliza uma das doutrinas mais gloriosas do cristianismo — a ressurreição do corpo — e a transforma em uma imagem de horror absoluto. Teologicamente, esta é a inversão sombria de 1 Coríntios 15, onde Paulo fala do corpo semeado em desonra para ressurgir em glória.  Para os condenados, o corpo ressurge não em glória, mas como um eterno monumento ao vício dominante da alma. O corpo se torna o epitáfio visível do pecado.

O “punho fechado” do avarento é a exegese perfeita da sua alma. É a imagem da retenção, da ansiedade, da recusa em dar, da incapacidade de abrir a mão para o próximo ou para Deus, agora gravada para sempre em sua carne. Em vida, seu punho se fechava em torno de uma moeda; na eternidade, ele se fecha em torno do nada, um espasmo de possessividade inútil.

Os “cabelos cortados” do pródigo, na cultura medieval, eram um sinal de humilhação, de um servo ou de um tolo.  É a imagem de uma vida de excessos que o “tosquiou” de sua dignidade, de sua herança, de sua força — como um Sansão que vendeu sua consagração por prazeres vãos. Seu corpo eterno carregará a marca de sua auto-humilhação.

Filosoficamente, isto afirma que nossas escolhas morais têm consequências ontológicas que permeiam todo o nosso ser. Não somos espíritos abstratos; somos uma unidade de corpo e alma. Nossas escolhas, nossos hábitos, nossas obsessões não são apenas atos que fazemos; são os tijolos com os quais construímos a casa de nosso ser. Cada ato de ganância ou de desperdício coloca mais um tijolo.

No dia da ressurreição, somos simplesmente forçados a habitar a casa que construímos, para sempre. Praticamente, já vemos um eco disso na vida: o corpo de um homem consumido pelo estresse da ganância ou devastado pelos excessos já é, em si, um testemunho de suas escolhas. Dante apenas projeta esta verdade na tela da eternidade. Biblicamente, é a colheita literal de Gálatas 6:7: “Aquilo que o homem semear, isso também ceifará”.  Eles semearam na carne da avareza e do desperdício, e de sua própria carne ressurreta, colhem a corrupção eterna.

  1. A Cegueira Estética e a Batalha Feia

64-66: “O mal dar e o mal reter o belo mundo / lhes tirou, e os pôs nesta batalha; / qual seja ela, não a adorno com belo enunciado.”

Virgílio oferece a definição mais concisa e academicamente perfeita destes pecados: “mal dare e mal reter”. Teologicamente, a consequência é dupla: a perda do Céu e a perda do “belo mundo”. A idolatria material os cegou para a beleza sacramental da criação; eles não viam um carvalho como um testemunho da glória de Deus, mas como madeira a ser vendida.  Praticamente, é a condição do homem moderno que não consegue apreciar um momento de paz sem tentar monetizá-lo ou postá-lo. A recusa de Virgílio em “adornar” a cena é um juízo estético e moral: o materialismo é inerentemente feio, desprovido da dignidade e de nobreza. Ele não nos torna grandes, ele apenas nos torna tão somente baixos.

  1. A Ponte da Desilusão (Versos 67-78)

67-72: “Agora podes ver, meu filho, a breve farsa / dos bens que estão confiados à Fortuna… pois todo o ouro que está sob a lua / e que já existiu, a nenhuma destas almas cansadas / poderia dar repouso, nem a uma.”

Esta seção transita da análise da feiura do pecado para a questão fundamental sobre a natureza dos bens que o causam. A vida materialista é julgada como uma “breve farsa” (corta buffa). Filosoficamente, este é o argumento central do livro bíblico de Eclesiastes: a perseguição da riqueza é hevel (vapor, vaidade), uma comédia ridícula de ambição que termina em nada. A afirmação de que “todo o ouro… não poderia dar repouso” é uma profunda verdade prática, psicológica e devocional.

Em nossa era de ansiedade e burnout, apesar de uma riqueza material sem precedentes na história, a promessa de que a acumulação trará paz (“repouso”) se revela a maior mentira. Agostinho de Hipona diagnostica a condição perfeitamente: “inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”. Dante apenas mostra o inferno dessa inquietação eterna.

CONCLUSÃO: 

Fizemos uma jornada da anatomia de uma alma em decomposição. Começamos com a identidade perdida dos pecadores, tornados anônimos e “escuros” por uma vida sem discernimento. Passamos pela desilusão com a “breve farsa” dos bens materiais, que prometem repouso e entregam tormento. Vimos como a corrupção do melhor se torna a pior, como nossa sede por julgar os outros é uma fuga de nós mesmos, e como a busca pela visibilidade pode levar à mais profunda escuridão.

Testemunhamos a verdade de que nossas escolhas esculpem nosso corpo eterno e nos cegam para a beleza do mundo. Estamos diante de uma escolha fundamental sobre a narrativa em que viveremos. Continuaremos a participar da “batalha feia” por bens vãos, uma farsa que termina em escuridão e anonimato? Ou vamos abraçar a graça libertadora, que nos convida a viver um cristianismo autêntico. Abandonar o amor pelo mundo e encontrar repouso somente em Deus.  

Que a profundidade desta meditação não seja um fardo, mas uma luz. Uma luz que exponha as sombras em nossas próprias vidas, para que, pela graça de Deus, possamos escolher a verdade, a beleza e a identidade que só se encontram Nele.

Jesus disse: (Mateus 6:21-23)

²¹ Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.

²² “Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.

²³ Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!

[1] A palavra “ontologia” tem etimologia grega, sendo formada a partir de “onto” (ὄν, genitivo ὄντος – on, ontos), que significa “o ser” ou “o que é”, e “-logia” (λόγος – logos), que se refere a “discurso”, “estudo” ou “ciência”. Assim, etimologicamente, ontologia significa “o estudo do ser.

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