Introdução

Na última meditação vimos o primeiro nome da lista de Dante: a hipocrisia, a máscara. Hoje vamos ao segundo: a bajulação. Os dois andam juntos, mas não são iguais.
Qual a diferença entre hipocrisia e bajulação?

O hipócrita mente sobre si mesmo, para que você o ache bom. O bajulador mente sobre você, para que você se ache bom e lhe dê alguma coisa.

E a bajulação é o pecado que quase todo mundo gosta de receber. Ninguém gosta de ser enganado, mas quase todo mundo gosta de ser elogiado.

Por isso ela é tão perigosa: entra pela porta do prazer. O bajulador não arromba a porta. Bate com um elogio, e a gente mesmo abre.

Veremos o assunto em dez quadros curtos, de dois em dois. Primeiro, o que é a bajulação: o esterco da segunda vala e o coração dobrado.

Depois, por que ela funciona: a rede estendida e o rei sem roupa. Depois, a bajulação que o povo encomenda: os quatrocentos profetas e o povo que assim o deseja.

Depois, o que Deus valoriza: as palavras de ama e as pedras do templo. Por fim, a bajulação hoje e a saída: a máquina que bajula e o amigo que fere. E, no fim, Aquele por quem vieram a graça e a verdade.
Quadro 1 · O que é a bajulação
O esterco da segunda vala
Inferno XI, v. 58
“A língua do bajulador nunca se enjoou de elogiar.”
“«por isso no segundo círculo faz ninho
a hipocrisia, a bajulação e quem faz feitiço,»”1
A segunda vala do oitavo círculo
A bajulação é o segundo nome da lista, e Dante a põe na segunda vala do oitavo círculo, no canto XVIII. Na primeira vala ficam os que enganaram mulheres; esses ficam para outra meditação.
Quando Dante e Virgílio chegam à beira da segunda vala, ainda não enxergam nada. Só ouvem: gente que geme, que bufa pelo nariz e que bate em si mesma com as mãos.
As margens estão cobertas de um mofo grudento, feito pelo bafo que sobe lá de baixo e que briga com os olhos e com o nariz. O fundo é tão escuro que só se vê alguma coisa subindo ao alto da ponte.2
Lá de cima, Dante vê “gente mergulhada num esterco que parecia ter vindo das privadas dos homens”. Um deles tinha a cabeça tão suja que não se sabia se era leigo ou clérigo. Dante o reconhece, porque já o tinha visto em vida, como diz, “com os cabelos secos”: é Alessio Interminei, um cavaleiro da cidade de Lucca.

E o homem, batendo na própria cabeça, confessa: “Aqui embaixo me afundaram as bajulações, das quais a minha língua nunca se enjoou.”3 A palavra que Dante usa quer dizer enjoar de tanto comer. A língua do bajulador nunca se enjoou de elogiar.
Por que Dante pôs os bajuladores no esterco?

Por que esterco? Francesco da Buti, comentarista do século XIV, explicou que Dante quis mostrar “quanto é feio e fedorento o vício da bajulação”. Disse mais: os bajuladores “se fazem servos de cada um de quem esperam tirar alguma coisa”, e “não há maior vileza do que a servidão”.

E eles batem em si mesmos porque, “louvando os vícios dos outros, trazem as culpas dos outros para si”.4 Robert Hollander, comentarista de Princeton, resumiu numa linha: “O que eles faziam lá em cima, fazem aqui embaixo.”
E lembra que em quase todas as línguas o povo tem um nome feio para as palavras do bajulador.5 Dante só tirou a palavra da boca do povo e fez dela um lugar.

Benvenuto da Imola, outro comentarista do século XIV, contou mais sobre Alessio. Era um cavaleiro nobre, “de natureza muito lisonjeira”, e gostava tanto de bajular “que não sabia fazer conversa nenhuma sem temperar com o óleo da bajulação”. “Untava todos, lambia todos, até os criados mais baixos e os empregados de aluguel.”

E Benvenuto explicou a pena: “muitos doutores chamam a bajulação de óleo”, e Dante, que detestava os bajuladores, “transformou o óleo em esterco”. Disse ainda que o esterco é humano, e não de bicho, “porque bajular é próprio do homem, e não de outro animal”.6
Taís e o bajulador que sempre aumenta
Ao lado de Alessio está uma mulher descabelada que se coça com as unhas sujas, ora agachada, ora de pé. É Taís, uma personagem do teatro romano. Dante lembra a resposta que ela teria dado ao amante que lhe perguntou: “Tenho grandes favores contigo?” Ela respondeu: “Grandes? Maravilhosos!”7

Dante tirou a cena de um livro de Cícero sobre a amizade, e Cícero explica a malícia: “bastava responder ‘grandes’; ele diz ‘enormes’. O bajulador sempre aumenta aquilo que o outro quer que seja grande.”8 O bajulador não inventa do nada. Pega o que você quer ouvir e aumenta.

Na comédia de Terêncio, de onde a cena veio, quem dá essa resposta é o bajulador Gnatão, e ele mesmo conta o seu método: “Tudo o que dizem, eu louvo; se depois negam, louvo também. Alguém diz não? Digo não. Diz sim? Digo sim. Mandei a mim mesmo concordar com tudo. Esse é hoje o negócio mais lucrativo.”9
O que é bajulação?

A bajulação é “agrado mostrado ao próximo, com palavras ou com gestos, contra a verdade”.10 Contra a verdade. Elogiar não é pecado; Paulo elogiou muitas vezes as igrejas. O pecado é o elogio que trai a verdade.
Quadro 2 · O que é a bajulação
Coração e coração
“O bajulador tem dois corações: um que mostra e outro que esconde.”
Lábios lisonjeiros e coração dobrado (Salmo 12)

Davi descreveu o seu tempo assim: “Salva-nos, SENHOR, porque faltam os homens benignos; porque são poucos os fiéis entre os filhos dos homens. Cada um fala com falsidade ao seu próximo; falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado” (Salmo 12:1-2).
No hebraico, “lábios lisonjeiros” é “lábios de lisura”, lábios lisos, que escorregam; e “coração dobrado” é “coração e coração”.11 O bajulador tem dois corações: um que mostra e outro que esconde. Calvino comentou esse verso: “esta duplicidade de coração faz os homens duplos e variáveis no falar”.12

E o salmo diz o que Deus fará: “O SENHOR cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente. Pois dizem: Com a nossa língua prevaleceremos; os lábios são nossos; quem é o senhor sobre nós?” (Salmo 12:3-4). O bajulador acha que a língua é dele. Deus diz que não.

Outro salmo mostra o que há por trás da língua lisa: “A sua boca era mais macia do que a manteiga, mas no seu coração, guerra; as suas palavras eram mais brandas do que o azeite; todavia, eram espadas nuas” (Salmo 55:21). E Salomão completa: “a boca lisonjeira opera a ruína” (Provérbios 26:28).
Spurgeon, o grande pregador batista de Londres, comentou o Salmo 12 com frases que parecem provérbios:

“A bajulação é a placa da taberna onde a falsidade é a dona da casa.” “Quem incha o coração do outro não tem nada melhor do que vento no seu.” E: “Se um homem me exalta na minha cara, só me mostra um lado do seu coração; o outro está negro de desprezo por mim, ou sujo da intenção de me enganar.”13
Como distinguir o bajulador do amigo

Muito antes, o escritor grego Plutarco escreveu um livro inteiro para ensinar a distinguir o bajulador do amigo.

Disse que o bajulador é como um espelho: não tem rosto próprio, só reflete os sentimentos dos outros.

É como a sombra: muda quando você muda e concorda quando você concorda; e Plutarco comenta que para isso a sua sombra serve melhor.

E é como o camaleão, que toma todas as cores, menos o branco: o bajulador imita tudo o que é vergonhoso e não imita nada do que é bom.14
O que fazer esta semana
Então, para esta semana: preste atenção na sua língua. Lembre quantas vezes você elogiou alguém de quem queria alguma coisa: o chefe, o cliente, o político, o líder. E lembre quantas vezes falou bem dessa mesma pessoa pelas costas. Se o elogio só aparece na frente, é bajulação.
Quadro 3 · Por que ela funciona
A rede estendida
“O elogio falso passa pela cabeça, que desconfia, e fica guardado no coração, que gosta.”

Salomão avisou: “O homem que lisonjeia a seu próximo arma uma rede aos seus passos” (Provérbios 29:5). No hebraico, “lisonjeia” é “torna liso”: o bajulador alisa o chão por onde você vai passar, e embaixo está a rede.15
A raposa e o corvo

Tem uma fábula infantil da raposa e do corvo. O corvo está no galho com um queijo no bico. A raposa elogia as penas dele e diz que, se a voz combinar com as penas, ele é a ave mais bela de toda a floresta. O corvo abre o bico para cantar, e o queijo cai.

Na versão do francês La Fontaine, a raposa pega o queijo e diz: “Aprenda que todo bajulador vive à custa de quem o escuta. Esta lição vale bem um queijo.” E o corvo, jurou, “mas um pouco tarde”, que não cairia mais nessa.16

O corvo perdeu só o queijo. Antístenes, filósofo grego e discípulo de Sócrates, dizia que é “melhor cair entre corvos do que entre bajuladores: os corvos comem os mortos, os bajuladores comem os vivos”. Em grego, as duas palavras mudam numa letra só: kórakas, corvos, e kólakas, bajuladores.17
O Bajulador em O Peregrino

John Bunyan, o pregador inglês que escreveu O Peregrino na prisão, pôs essa rede no caminho de Cristão e Esperançoso. Na cena aparece um homem vestido com um manto muito claro e diz: “Siga-me”.

Logo depois os dois estão presos numa rede, o manto cai, e eles veem onde estão. Um ser resplandecente vem, rasga a rede e diz: “É o Bajulador, um falso apóstolo, que se transformou em anjo de luz.”

E os peregrinos confessam: “não imaginávamos que este homem de fala tão bonita fosse ele”. Bunyan cita ali mesmo o versículo de Salomão sobre a rede.18
O elogio funciona mesmo quando desconfiamos
E a ciência mostrou que a rede funciona mesmo quando a gente a vê. Elaine Chan e Jaideep Sengupta, em 2010, deram a pessoas o folheto de uma loja cheio de elogios ao bom gosto delas. Todas perceberam que o elogio era interessado, e descontaram. Mesmo assim, três dias depois, oito em cada dez escolheram o cupom daquela loja.19

O elogio falso passa pela cabeça, que desconfia, e fica guardado no coração, que gosta. E uma grande revisão de estudos, feita por Randall Gordon em 1996, mostrou que a bajulação aumenta a simpatia por quem bajula.20
O óleo do pecador (Salmo 141:5)

Davi conhecia esse perigo e orou: “Fira-me o justo, será isso uma benignidade; e repreenda-me, será um excelente óleo, que a minha cabeça não rejeitará” (Salmo 141:5). A Bíblia latina que Agostinho lia trazia esse verso de outro jeito: “o óleo do pecador não ungirá a minha cabeça”.

E Agostinho explicou: “O louvor indevido é bajulação; o louvor indevido do bajulador é o óleo do pecador.” E deu um conselho: “Tenham óleo em vocês mesmos, e não vão procurar o óleo do pecador.”21 O mesmo Agostinho confessou que esse era o seu teste de todos os dias: “A nossa fornalha de cada dia é a língua humana.”22
Quadro 4 · Por que ela funciona
O rei sem roupa
“Mostre aos seus que a verdade não o ofende.”
A roupa nova do imperador
O dinamarquês Hans Christian Andersen contou em 1837 a história de um imperador vaidoso. Dois espertalhões prometeram tecer para ele um pano que ficava invisível para quem fosse burro ou não servisse para o cargo.
Ninguém via pano nenhum, e ninguém tinha coragem de dizer, para não parecer burro. Os ministros elogiaram, o povo elogiou: “Como são lindas as roupas novas do imperador!”
Até que uma criança disse: “Mas ele não está vestindo nada!” E a cidade inteira repetiu. O imperador sentiu um arrepio, porque desconfiou que era verdade, mas pensou que o desfile tinha de continuar. E andou ainda mais orgulhoso, enquanto os nobres seguravam a cauda que não existia.23
A ciência confirmou a fábula. Pesquisadores americanos acompanharam, entre 2001 e 2007, 451 presidentes de grandes empresas dos Estados Unidos e mais de três mil diretores e conselheiros que trabalhavam com eles.

Os presidentes que recebiam mais elogio e mais concordância ficaram mais confiantes em si mesmos, demoraram mais a mudar quando a empresa ia mal, a empresa continuou mal, e cresceu a chance de serem demitidos.24

Maquiavel, que não era nenhum santo, já tinha avisado os príncipes que as cortes estão cheias de bajuladores, e que “não há outro modo de se guardar dos bajuladores senão fazer os homens entenderem que dizer a verdade não ofende”.25
O rei Lear e a filha que não bajulou
Shakespeare escreveu a tragédia de um rei que preferiu a bajulação. O velho rei Lear pediu às três filhas que dissessem quanto o amavam, para dividir entre elas o reino. As duas mais velhas fizeram discursos de bajulação. A caçula, Cordélia, disse que o amava conforme o dever, nem mais nem menos. Lear a deserdou.

E o conde Kent protestou que o dever tem de falar “quando o poder se curva à bajulação”.26 O rei entregou o reino às filhas que o bajularam, e elas acabaram pondo o pai para fora de casa.
Tomará o reino com lisonjas (Daniel 11)
E a Bíblia mostra o poder subindo pela lisonja. Daniel profetizou sobre um rei desprezível que “virá caladamente e tomará o reino com engano” (Daniel 11:21); no hebraico, a palavra é “lisuras”.
E disse mais: “aos violadores do concerto ele, com lisonjas, perverterá, mas o povo que conhece ao seu Deus se esforçará e fará proezas” (Daniel 11:32).
Esse rei foi Antíoco Epífanes, que perseguiu os judeus quase dois séculos antes de Cristo. John Walvoord, um dos grandes mestres do dispensacionalismo, escreveu que Antíoco é “um tipo do futuro homem do pecado”.27
O Anticristo último grande enganador também vai subir pela lisonja. Quem não cai nela é “o povo que conhece ao seu Deus”.
O que fazer esta semana
Então, para esta semana: se Deus lhe deu alguma autoridade, em casa, no trabalho ou na igreja, pergunte-se quem perto de você tem coragem de dizer que você está sem roupa. Se ninguém tem, talvez o problema seja você. Mostre aos seus que a verdade não o ofende.
Quadro 5 · A bajulação que o povo encomenda
Os quatrocentos profetas
“A profecia verdadeira às vezes consola e às vezes fere; a falsa sempre agrada.”
Acabe, Micaías e os quatrocentos profetas (1 Reis 22)

O rei Acabe queria ir à guerra contra Ramote-Gileade e chamou os profetas da corte, “até quase quatrocentos homens”. Todos disseram a mesma coisa: “Sobe, porque o Senhor a entregará na mão do rei” (1 Reis 22:6).

O rei Josafá, que estava com ele, desconfiou e perguntou se não havia outro profeta. Acabe respondeu: “Ainda há um homem por quem podemos consultar ao SENHOR; porém eu o aborreço, porque nunca profetiza de mim bem, mas só mal; este é Micaías, filho de Inlá” (1 Reis 22:8).

O mensageiro que foi buscar Micaías já lhe deu o recado: “Vês aqui que as palavras dos profetas, a uma voz, predizem coisas boas para o rei; seja, pois, a tua palavra como a palavra de um deles, e fala bem.”

E Micaías: “Vive o SENHOR, que o que o SENHOR me disser isso falarei” (1 Reis 22:13-14). Micaías foi preso a pão e água de angústia. Acabe foi à guerra e morreu nela.

Matthew Henry, comentarista inglês, tirou daí lições duras: “A unidade nem sempre é a marca de uma igreja verdadeira”; “quatrocentos homens profetizaram com uma só mente e uma só boca, e todos errados”.

E sobre Acabe odiar Micaías porque ele só profetizava o mal, Henry perguntou: “E de quem era a culpa?”28
Dizei-nos coisas aprazíveis (Isaías 30:10)

Isaías descreveu o povo que encomenda esse tipo de profeta: “dizem aos videntes: Não vejais; e aos profetas: Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos coisas aprazíveis e tende para nós enganadoras lisonjas” (Isaías 30:10).

No hebraico, “coisas aprazíveis” é a mesma palavra dos lábios lisos do Salmo 12.29 E Jesus avisou: “Ai de vós quando todos os homens falarem bem de vós, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas!” (Lucas 6:26).

A bajulação é a máquina que movem a igreja moderna. Há uma bajulação que se veste de profecia: a palavra que só promete vitória, bênção e promoção, que nunca chama ao arrependimento, e que o povo aplaude porque é exatamente o que queria ouvir. E isso os pregadores coutes, da nossa era faz muito bem.

Os quatrocentos profetas de Acabe também falavam em nome do Senhor. A profecia verdadeira às vezes consola e às vezes fere; a falsa sempre agrada.
Wesley: doces em vez de vinho

John Wesley, o pai do metodismo, viu isso no seu tempo. Escreveu em 1751 que certos pregadores, chamados de pregadores do evangelho, falavam “muito das promessas e pouco dos mandamentos”, e assim “alimentam o povo com doces, até que o vinho verdadeiro do reino lhe parece sem gosto”.

Davam ao povo um estimulante (dopamina) atrás do outro, que o deixava animado na hora, “mas, enquanto isso, o apetite se destrói”.30

Gregório Magno, bispo de Roma no século VI, escreveu um livro para pastores e tratou disso. O pastor que deseja ser amado mais do que a verdade, disse ele, às vezes “suaviza com bajulações a falta que devia repreender”.

E usou uma imagem bonita: o pastor é como um servo que o noivo mandou levar presentes à noiva; se ele quiser agradar aos olhos da noiva para si mesmo, “é culpado de pensamento traiçoeiro”.31 O pregador que bajula a igreja está guardando para si o amor que pertence a Cristo.
Quadro 6 · A bajulação que o povo encomenda
O meu povo assim o deseja
“O profeta bajulador não vive sozinho. Ele tem freguesia.”

Isaías mostrou o povo que encomenda o profeta. Jeremias foi mais longe e disse, da parte de Deus, sobre Jerusalém: “os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam pelas mãos deles, e o meu povo assim o deseja; e que fareis no fim disso?” (Jeremias 5:31).

O povo de Deus sempre foi tentado a gostar disso assim, e segue de boa vontade esse tipo de liderança que sempre agrada”. O povo gosta pois: “o falso ensino alivia o jugo da lei de Deus e tira da consciência o temor dele”.32

O profeta bajulador não vive sozinho. Ele tem freguesia.
Comichão nos ouvidos (2 Timóteo 4:3)

Paulo avisou Timóteo que isso voltaria: “Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Timóteo 4:3-4). Nesse texto, quem escolhe o pregador é o ouvinte.

A palavra grega de “amontoarão” quer dizer juntar numa pilha, um em cima do outro, sem critério. E as redes sociais estão amontados desse tipo de pregadores.
E a comichão é a coceira de ouvir só o que dá gosto. Marvin Vincent, estudioso americano do grego do Novo Testamento, resumiu assim: “A procura cria a oferta. Os ouvintes chamam e moldam os seus próprios pregadores.”33

Alguém já traduziu Paulo assim: “para seu apetite terão grande número de pregadores feitos aos montões e sem critério algum, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas”.
Muitas pregações do nosso tempo é um show de comédia, “porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes”.

Alguém pode falar do fim dos famosos programas de TV de comédia do passado. “Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro, da tv para o púlpito das igrejas.”34
Crisóstomo e o sermão que só deleita
João Crisóstomo, o grande pregador de Constantinopla, já tinha dito o mesmo ao seu povo:

“Isto virou as igrejas de cabeça para baixo, porque vós não quereis ouvir um sermão que leve ao arrependimento, mas um que vos deleite com o som e o arranjo das palavras, como quem ouve cantores e tocadores de cítara; e nós fazemos um papel ridículo, deixando-nos levar pelos vossos desejos, quando devíamos arrancá-los.”

E Crisóstomo foi honesto: quando o aplaudiam, gostava; mas, chegando em casa, lembrava que o povo tinha perdido o proveito enquanto aplaudia, e chorava.35

Ezequiel ouviu de Deus a mesma coisa sobre os que vinham escutá-lo: “E eis que tu és para eles como uma canção de amores, canção de quem tem voz suave e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra” (Ezequiel 33:32).
O Comentário do Púlpito, obra inglesa do século XIX, explicou que eles iam ouvir o profeta “como iriam ouvir um cantor contratado num banquete”.36 Gostavam da voz e esqueciam a mensagem.

Hoje a pilha de pregadores cabe no celular. A gente segue quem diz o que a gente quer ouvir e deixa de seguir quem incomoda e que parece radical.

Em 2009, pesquisadores americanos juntaram 91 estudos, com quase oito mil pessoas, e concluíram que a gente escolhe cerca de duas vezes mais a informação que confirma o que já pensa (67%) do que a que contraria (33%). O título do trabalho já é um sermão: “Sentir-se validado em vez de estar certo”.37
O que fazer esta semana
Faça isto esta semana: abra no seu celular a lista dos pregadores que você segue. Algum deles já chamou você ao arrependimento? Algum já tocou no seu pecado? Se nenhum nunca fez isso, você amontoou doutores para a sua coceira. Siga quem prega a Palavra inteira, mesmo quando ela dói.
Quadro 7 · O que Deus valoriza
Palavras de ama
“O bajulador é doce com você porque ama o que você pode dar.”
Nunca usamos de palavras lisonjeiras (1 Tessalonicenses 2)

Paulo escreveu aos tessalonicenses: “assim falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova o nosso coração. Porque, como bem sabeis, nunca usamos de palavras lisonjeiras, nem houve um pretexto de avareza; Deus é testemunha.

E não buscamos glória dos homens, nem de vós, nem de outros, ainda que podíamos, como apóstolos de Cristo, ser-vos pesados; antes, fomos brandos entre vós, como a ama que cria seus filhos” (1 Tessalonicenses 2:4-7).
A palavra grega para “lisonjeiras” só aparece aqui em todo o Novo Testamento.38 E Paulo põe lado a lado duas coisas que parecem iguais e são opostas: a bajulação e a ternura.

Crisóstomo comentou: “Acaso a ama bajula para ganhar glória?”39 A ama é doce com a criança porque ama a criança. O bajulador é doce com você porque ama o que você pode dar.

Quem deseja agradar aos homens tem por força de se rebaixar vergonhosamente à bajulação”.40

E Paulo disse aos gálatas: “Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1:10).

Aos romanos, avisou sobre os que “com suaves palavras e lisonjas enganam o coração dos símplices” (Romanos 16:18).
A palavra grega de “suaves palavras” servia para o homem que fala bem e faz mal; um antigo livro de história conta que o imperador romano Pértinax ganhou esse apelido.41

E Judas descreve os falsos mestres como gente que anda “admirando as pessoas por causa do interesse” (Judas 16).
O puxa-saco e o “efeito gosma”
No trabalho, o povo tem um nome para isso: puxa-saco. A psicóloga holandesa Roos Vonk estudou o comportamento em 1998 e o chamou de “efeito gosma”: quem é agradável com os de cima e desagradável com os de baixo é visto pelos outros com desconfiança e antipatia.42 Os colegas percebem logo.

E Eliú, no livro de Jó, juntou as duas coisas numa oração: “Queira Deus que eu não faça acepção de pessoas, nem use de lisonjas com o homem! Porque não sei usar de lisonjas; em breve me levaria o meu Criador” (Jó 32:21-22).
O que fazer esta semana
Então, para esta semana: observe como você trata quem está acima e quem está abaixo de você. Se o porteiro, a faxineira, o funcionário e o filho recebem de você um tratamento, e o chefe, o pastor e o rico recebem outro, cuidado: é o efeito gosma na sua vida. Trate os pequenos como trata os grandes.
Quadro 8 · O que Deus valoriza
Que pedras e que edifícios!
“A glória de uma igreja é a presença de Deus.”
A oferta da viúva e as pedras do templo (Marcos 12–13)

Marcos conta duas cenas, uma atrás da outra. Na primeira, Jesus está sentado no templo, defronte da arca do tesouro, vendo o povo lançar as ofertas. Muitos ricos depositavam muito.

Chegou uma pobre viúva e lançou duas pequenas moedas. Jesus chamou os discípulos e disse que ela tinha dado mais do que todos, porque deu “tudo o que tinha, todo o seu sustento” (Marcos 12:41-44).

Na segunda cena, saindo do templo, um discípulo disse: “Mestre, olha que pedras e que edifícios!” E Jesus respondeu: “Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada” (Marcos 13:1-2).
As pedras eram enormes. Os comentaristas lembram que o historiador judeu Flávio Josefo fala de pedras de quarenta e cinco côvados, uns vinte metros de comprimento.43

O comentário inglês organizado por Charles Ellicott viu o contraste entre as duas cenas: os discípulos “admiraram as ‘belas pedras’ mais do que a ‘oferta da viúva’”; “ainda estavam medindo as coisas pela quantidade e pelo tamanho”.

E Matthew Henry escreveu: “Vede quão pouco Cristo valoriza a pompa exterior, onde não há verdadeira pureza de coração.”44 Uns quarenta anos depois, o templo foi destruído. A oferta da viúva é lembrada até hoje.

Muita gente escolhe igreja como aquele discípulo: pelo tamanho das pedras. Procura o prédio monumental, o som, a luz, o palco, a sensação de estar num lugar moderno e próspero, onde todo mundo parece vencedor.

E despreza a igreja simples, que não impressiona ninguém. O problema não é o prédio grande. O templo de Salomão era magnífico, e “a glória do SENHOR enchera a Casa do SENHOR” (1 Reis 8:11). O problema é escolher a igreja pelo que ela faz com o nosso orgulho.

Paulo chegou a Corinto “em fraqueza, e em temor, e em grande tremor”, e disse: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1 Coríntios 2:3-4). A glória de uma igreja é a presença de Deus.
Laodiceia e Esmirna (Apocalipse 2–3)
Jesus mandou cartas a duas igrejas da Ásia que mostram isso. Laodiceia era uma cidade rica. O historiador romano Tácito conta que, depois de um terremoto, ela se reergueu “com os seus próprios recursos, sem nenhum socorro nosso”, isto é, sem ajuda de Roma.45

A igreja de lá dizia: “Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta”. E Jesus respondeu: “e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Apocalipse 3:17). Laodiceia bajulava a si mesma.

Para Esmirna, igreja pobre e perseguida, Jesus disse o contrário: “Eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico)” (Apocalipse 2:9). A igreja que se achava rica era pobre. A que parecia pobre era rica.
Quereis vós também retirar-vos? (João 6)

E Jesus nunca correu atrás de multidão. Quando a pregação em Cafarnaum ficou dura, “desde então, muitos dos seus discípulos tornaram para trás e já não andavam com ele” (João 6:66).
Jesus não mudou a mensagem para segurar o povo. Virou-se para os doze e perguntou: “Quereis vós também retirar-vos?” E Pedro respondeu: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6:67-68).
Johann Bengel, comentarista alemão do século XVIII, escreveu: “Uma multidão misturada não tem tanta importância quanto a sinceridade.”46

Muita gente deixou uma igreja simples porque lá ninguém o tratava como importante, ou porque o pastor tocou no seu pecado, e aí foram atras de igrejas encantadoras.

Não meça a igreja pelo tamanho das pedras. Meça pela Palavra que se prega e pela santidade dela e presença do Espírito Santo. E lembre o que Deus perguntou pelo profeta: “quem despreza o dia das coisas pequenas?” (Zacarias 4:10).
Quadro 9 · A bajulação hoje e a saída
A máquina que bajula
“A bajulação precisa de dois: um que fala e outro que gosta de ouvir.”
Inteligência artificial e bajulação

A bajulação chegou às máquinas. Em abril de 2025, a empresa OpenAI, dona do ChatGPT, teve de desfazer uma atualização do seu programa porque ele tinha ficado, nas palavras da própria empresa, “excessivamente lisonjeiro ou concordante”.

Segundo a empresa, o programa chegava a validar dúvidas, alimentar raiva e incentivar decisões impulsivas. E por que a máquina aprendeu a bajular?

A empresa explicou que tinha dado peso demais à aprovação imediata dos usuários, ao polegar para cima que cada um dava às respostas.47 O povo premiou a bajulação, e a máquina aprendeu.

Uma pesquisa de 2023, feita pela empresa Anthropic, encontrou o mesmo em vários assistentes de inteligência artificial: eles tendem a bajular, e uma das causas é que as pessoas, ao avaliar as respostas, muitas vezes preferem uma resposta bajuladora bem escrita a uma resposta correta.48

A máquina só aprendeu o que o coração humano já fazia. Cícero escreveu, há mais de dois mil anos: “não há amizade nenhuma quando um não quer ouvir a verdade e o outro está pronto para mentir”.49 A bajulação precisa de dois: um que fala e outro que gosta de ouvir.

Agostinho escreveu: “Dois são os tipos de perseguidores: os que insultam e os que bajulam. A língua do bajulador persegue mais do que a mão do assassino.”50

Ninguém peca só porque foi bajulado: o bajulador não é causa suficiente do pecado do outro, e quem gosta de ser bajulado também responde.

As redes sociais vivem da mesma moeda: a curtida, o coraçãozinho, o “arrasou”. Como vimos na meditação passada, o palco está no bolso, e a plateia paga em elogio.
O que fazer esta semana
E agora olhe para você: em quem você premia? Você ouve com prazer só quem concorda com você? Afasta quem discorda? As máquinas aprenderam a bajular com gente como nós. Esta semana, agradeça a alguém que teve coragem de lhe dizer uma verdade difícil.
Quadro 10 · A bajulação hoje e a saída
O amigo que fere
“A verdade arde primeiro e alimenta depois.”

Salomão escreveu: “O que repreende ao homem achará depois mais favor do que aquele que lisonjeia com a língua” (Provérbios 28:23).

Pensando bem, a maioria acaba tendo melhor opinião de quem a repreendeu com fidelidade do que de quem a acalmou com bajulação. E um velho provérbio latino diz: “O bajulador elogia, mas não ama de verdade.”51

Salomão também avisou contra o elogio barulhento: “O que bendiz ao seu amigo em alta voz, madrugando pela manhã, por maldição se lhe contará” (Provérbios 27:14).

E Paulo, ferido porque os gálatas se afastaram dele depois de ouvir a verdade, perguntou: “Fiz-me, acaso, vosso inimigo, dizendo a verdade?” (Gálatas 4:16).
O elogio que era armadilha (Mateus 22)
O próprio Senhor Jesus recebeu uma bajulação de mestre. Os fariseus mandaram discípulos, junto com os herodianos, que começaram assim:

“Mestre, bem sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus, segundo a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas à aparência dos homens” (Mateus 22:16).

Cada palavra era verdade. E logo veio a armadilha, a pergunta sobre o tributo a César. “Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas?” (Mateus 22:18).

A melhor bajulação usa a verdade como isca. O elogio era verdadeiro; a intenção era falsa. E Jesus não se deixou mover.
O próprio Dante recebeu essa ordem. No Paraíso, ele tem medo de contar tudo o que viu, porque para muitos aquilo vai ter gosto amargo. E o seu antepassado Cacciaguida responde:

“Tirada toda mentira, mostra toda a tua visão; e deixa que se cocem onde há sarna. Porque, se a tua voz for amarga no primeiro gosto, deixará depois alimento de vida, quando for digerida.”52

Os ouvidos com comichão querem uma coceira gostosa. A verdade arde primeiro e alimenta depois.
O que fazer esta semana
Então, para esta semana: seja o amigo que fere com amor. Se há alguém que você vê caminhando para o erro, e você só elogia, fale esta semana, com cuidado e com verdade. É assim que a Bíblia manda: “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4:15).
ConclusãoA graça e a verdade
“O bajulador tem graça sem verdade. O homem duro tem verdade sem graça. Cristo tem as duas.”

No fim, Jesus recebeu a bajulação mais cruel da história. Os soldados, “tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça e, em sua mão direita, uma cana; e, ajoelhando diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, Rei dos judeus!” (Mateus 27:29).

Joelho dobrado, saudação de rei e desprezo no coração: é a bajulação inteira numa cena só. Mas, daquela vez, o elogio era verdadeiro, e os soldados não sabiam. Ele era mesmo o Rei.

E Ele nunca bajulou ninguém. Disse a verdade a Pedro, à mulher samaritana, ao jovem rico e a Pilatos. E, no entanto, ninguém foi tão terno: lavou os pés dos discípulos e chorou à porta do sepulcro de Lázaro.
Cheio de graça e de verdade (João 1:17)

João resumiu assim: “a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (João 1:17). O bajulador tem graça sem verdade. O homem duro tem verdade sem graça. Cristo tem as duas.

Lembra do conselho de Agostinho sobre o óleo? Nós sabemos de que óleo a Bíblia fala: “a unção que vós recebestes dele fica em vós… e é verdadeira, e não é mentira” (1 João 2:27).

Então, se a sua língua anda lisa demais, peça a Deus que a corte, antes que ela o afunde. E se você vive do elogio dos outros, troque de óleo hoje. Quem tem a unção de Deus não precisa do óleo do bajulador.
Soli Deo Gloria!
Notas e fontes
52 notas do manuscrito do pastor, com as fontes citadas
- 1
Inferno XI.57-58, tradução nossa. Original: “onde nel cerchio secondo s’annida / ipocresia, lusinghe e chi affattura”. Texto de Petrocchi. A Enciclopedia Dantesca (verbete “lusinga”, Vincenzo Laraia): “Lusinghe vengono chiamate le colpe degli adulatori puniti nella seconda bolgia dell’ottavo cerchio (If XI 58)”. Os bajuladores estão em Inferno XVIII.100-136; na primeira vala do mesmo canto estão os rufiões e sedutores (XVIII.22-99). ↩
- 2
Inferno XVIII.103-111: “Quindi sentimmo gente che si nicchia / ne l’altra bolgia e che col muso scuffa, / e sé medesma con le palme picchia. / Le ripe eran grommate d’una muffa, / per l’alito di giù che vi s’appasta, / che con li occhi e col naso facea zuffa. / Lo fondo è cupo sì, che non ci basta / loco a veder sanza montare al dosso / de l’arco, ove lo scoglio più sovrasta.” Texto de Petrocchi (Dante Lab). ↩
- 3
Inferno XVIII.112-126: “vidi gente attuffata in uno sterco / che da li uman privadi parea mosso. / E mentre ch’io là giù con l’occhio cerco, / vidi un col capo sì di merda lordo, / che non parëa s’era laico o cherco… già t’ho veduto coi capelli asciutti, / e se’ Alessio Interminei da Lucca… Qua giù m’hanno sommerso le lusinghe / ond’ io non ebbi mai la lingua stucca.” “Stucca”: “saciado até a náusea”, única ocorrência em Dante (Enciclopedia Dantesca, verbete “stucco”, Niccoli). Alessio Interminei, de Lucca, contemporâneo de Dante, “condenado em Malebolge por adulação continuada”, ainda vivo em 27 de dezembro de 1295, data do último documento conhecido (Enciclopedia Dantesca, verbete “Alessio Interminei”, Aldo Rossi). Buti: “cavaleiro de Lucca, que foi grande bajulador enquanto viveu”. ↩
- 4
Francesco da Buti, comentário ao canto XVIII: o autor trata dos aduladores “mostrando quanto è brutto e fetido lo vizio dell’adulazione”; os aduladores do mundo “si fanno servi di ciascuno dal quale sperano di sottraere sì, che per viltà bene stanno nello sterco: imperò che non è maggiore viltà che la servitudine”; e batem em si mesmos porque, “lodando li vizi altrui, arrecano l’altrui colpe a sè”; acrescenta que essa espécie de aduladores “più si trova nelle corti de’ signori che altrove”. ↩
- 5
Robert Hollander (Princeton), nota a Inf. XVIII.100-114: “What they did above, they do below, wallowing in excrement”; e: “It is unnecessary to repeat the slang phrases that are used in nearly all languages to characterize their utterance.” ↩
- 6
Benvenuto da Imola, Comentum super Dantis Aldigherij Comoediam, Inferno XVIII (ed. Lacaita, Florença, 1887, t. II; archive.org/details/comentumsuperdan02benv): “Iste fuit quidam Alexius miles dignitate, nobilis genere, natione lucanus, natura blandissimus”; “tantum delectabatur adulatione, quod nullum sermonem sciebat facere, quem non condiret oleo adulationis; omnes ungebat, omnes lingebat, etiam vilissimos et mercenarios famulos”; “nam multi doctores appellant adulationem oleum. Autor vero, qui fuit rigidus, ut Cato amator honestatis, habuit istos ad summum fastidium; ideo bene convertit oleum in stercus”; “quia adulari est proprium hominis, non alterius animalis”. Texto lido na digitalização (OCR) da edição de 1887. ↩
- 7
Inferno XVIII.130-136: “di quella sozza e scapigliata fante / che là si graffia con l’unghie merdose, / e or s’accoscia e ora è in piedi stante. / Taïde è, la puttana che rispuose / al drudo suo quando disse ‘Ho io grazie / grandi apo te?’: ‘Anzi maravigliose!’ / E quinci sian le nostre viste sazie.” Na comédia O Eunuco, de Terêncio (III.1, vv. 391-392), quem pergunta é o soldado Trasão e quem responde, aumentando, é o parasita Gnatão; Taís não fala. Segundo a Enciclopedia Dantesca (verbete “Taide”, Pastore Stocchi), Dante leu a cena em Cícero, que não identifica quem fala, e tomou “Thais” como a pessoa que responde. Hollander: em Cícero e em Terêncio, Taís é a bajulada, não a bajuladora. ↩
- 8
Cícero, Lélio, ou Sobre a amizade (De amicitia) 98: “‘Magnas vero agere gratias Thais mihi?’ Satis erat respondere: ‘magnas’; ‘ingentes’ inquit. Semper auget assentator id, quod is cuius ad voluntatem dicitur vult esse magnum.” (The Latin Library). ↩
- 9
Terêncio, O Eunuco (Eunuchus) 251-253: “Quicquid dicunt laudo: id rursum si negant, laudo id quoque. / Negat quis? nego: ait? aio. Postremo imperavi egomet mihi / Omnia assentari. Is quaestus nunc est multo uberrimus.” (Perseus/Perseids). A resposta “ingentes” é de Gnatão, em III.1, vv. 391-392. ↩
- 10
Buti, comentário ao canto XVIII: “adulazione, o vero lusinga, è compiacenzia mostrata al prossimo con parole o con atti contra la verità”. ↩
- 11
Salmo 12:2 (12:3 no hebraico): śᵉfat ḥălāqôt bᵉlēv wālēv yᵉdabbērû, “com lábio de lisuras, com coração e coração falam”. O BDB define ḥălāqôt como “lisura, adulação”; o verbo ḥālaq, “ser liso, escorregadio”, no grau causativo significa “tornar liso”, isto é, bajular com a língua (Salmo 5:9; Provérbios 28:23; 29:5). ↩
- 12
João Calvino, Comentário aos Salmos, Salmo 12:2: “cada homem procura enredar o seu próximo pela bajulação”; “This doubleness of heart, as I may term it, makes men double and variable in their speech.” ↩
- 13
Charles H. Spurgeon, The Treasury of David, exposição do Salmo 12:2 (palavras do próprio Spurgeon): “Flattery is the sign of the tavern where duplicity is the host”; “He who puffs up another’s heart, has nothing better than wind in his own”; “If a man extols me to my face, he only shows me one side of his heart, and the other is black with contempt for me, or foul with intent to cheat me.” ↩
- 14
Plutarco, Como distinguir o bajulador do amigo (Moralia), trad. inglesa de F. C. Babbitt (Loeb, 1927), cap. 8: “Não preciso de um amigo que muda quando eu mudo e concorda quando eu concordo (a minha sombra faz isso melhor), mas de um que diga a verdade como eu digo”; o bajulador, “como um espelho, só capta as imagens dos sentimentos, vidas e movimentos alheios”. Cap. 9: “o caso do bajulador é exatamente o do camaleão”, que “pode se fazer semelhante a todas as cores, menos ao branco”; o bajulador “não deixa nada vergonhoso sem imitar”. ↩
- 15
Provérbios 29:5: geber maḥălîq ʿal-rēʿēhû rešet pôrēś ʿal-pᵉʿāmāyw: maḥălîq, particípio causativo de ḥālaq, “o que torna liso”; rešet, “rede”. ↩
- 16
Jean de La Fontaine, Fábulas I.2, “O Corvo e a Raposa”: “Le renard s’en saisit, et dit: Mon bon monsieur, / Apprenez que tout flatteur / Vit aux dépens de celui qui l’écoute: / Cette leçon vaut bien un fromage, sans doute. / Le corbeau, honteux et confus, / Jura, mais un peu tard, qu’on ne l’y prendroit plus.” Na fábula, a raposa diz: “Vous êtes le phénix des hôtes de ces bois.” A fábula vem de Esopo (Perry 124). ↩
- 17
Diógenes Laércio, Vidas dos filósofos VI.4 (Antístenes), citando Hecatão: κρεῖττον ἔλεγε εἰς κόρακας ἢ εἰς κόλακας ἐμπεσεῖν· οἱ μὲν γὰρ νεκρούς, οἱ δὲ ζῶντας ἐσθίουσιν. Tradução inglesa de R. D. Hicks (Loeb, 1925): “it is better to fall in with crows than with flatterers; for in the one case you are devoured when dead, in the other case while alive.” “Ir para os corvos” era também uma praga grega comum, como “vá para o inferno”. ↩
- 18
John Bunyan, The Pilgrim’s Progress, parte I (1678): “covered with a very light Robe”; “Follow me”; “he led them both within the compass of a Net”; “the white Robe fell off”; “A man that flattereth his Neighbour, spreadeth a Net for his feet”; “It is Flatterer, a false Apostle, that hath transformed himself into an Angel of Light”; “we did not imagine… that this fine-spoken man had been he”. Fonte: sacred-texts.com/chr/bunyan/pp09.htm. O “anjo de luz” vem de 2 Coríntios 11:14. ↩
- 19
Elaine Chan e Jaideep Sengupta, “Insincere flattery actually works: A dual attitudes perspective”, Journal of Marketing Research 47 (1), 2010, pp. 122-133: os leitores do folheto adulador descontavam o elogio no juízo consciente, mas mantinham uma impressão favorável automática; três dias depois, 80% escolheram o cupom da loja aduladora, contra 54% na escolha imediata. Dados lidos nos resumos da American Marketing Association e da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong. ↩
- 20
Randall A. Gordon, “Impact of ingratiation on judgments and evaluations: A meta-analytic investigation”, Journal of Personality and Social Psychology 71 (1), 1996, pp. 54-70: “um pequeno efeito positivo da insinuação sobre as avaliações de desempenho” e “um efeito positivo significativamente mais forte sobre os julgamentos de atração interpessoal (isto é, simpatia)”. Resumo lido no repositório da Universidade de Minnesota. ↩
- 21
Agostinho, Comentário aos Salmos (Enarrationes in Psalmos), Salmo 140 da Bíblia latina (141 na nossa), v. 5: “o óleo do pecador não engordará a minha cabeça”; “a minha cabeça não crescerá pela bajulação”; “o louvor indevido é bajulação: o louvor indevido do bajulador é o óleo do pecador”; “por isso também os homens, quando zombam de alguém com falso louvor, dizem: ungi-lhe a cabeça”; “tende óleo em vós mesmos, e não buscareis o óleo do pecador” (tradução inglesa da Nicene and Post-Nicene Fathers). A Bíblia latina segue aqui a Septuaginta; o texto hebraico, que a ARC traduz, diz “repreenda-me, será um excelente óleo, que a minha cabeça não rejeitará”. ↩
- 22
Agostinho, Confissões X.37.60: “Tentamur his tentationibus quotidie, Domine; sine cessatione tentamur. Quotidiana fornax nostra est humana lingua.” Em X.37.61: “deleito-me com o louvor, mas mais com a própria verdade do que com o louvor”. ↩
- 23
Hans Christian Andersen, A roupa nova do imperador (1837), trad. inglesa de Jean Hersholt: o pano “tinha o dom maravilhoso de ficar invisível para quem não servisse para o seu cargo ou fosse extraordinariamente tolo”; “ninguém confessava que não via nada, porque isso provaria que não servia para o cargo, ou que era tolo”; “Mas ele não está vestindo nada!”, disse uma criancinha; “O imperador estremeceu, pois desconfiava que eles tinham razão. Mas pensou: ‘Este desfile tem de continuar’. E caminhou mais orgulhoso do que nunca, enquanto os seus nobres seguravam a cauda que não existia.” ↩
- 24
Sun Hyun Park, James D. Westphal e Ithai Stern, “Set up for a fall: The insidious effects of flattery and opinion conformity toward corporate leaders”, Administrative Science Quarterly, 2011: questionários enviados em 2001 aos presidentes de 1.350 empresas americanas; amostra final de 451 presidentes; 3.135 executivos e conselheiros responderam como possíveis bajuladores; dados de 2001 a 2007. A bajulação e a concordância aumentam o excesso de confiança, que “reduz a probabilidade de que os presidentes iniciem a mudança estratégica necessária diante do mau desempenho”, o que “pode resultar na persistência do baixo desempenho” e “aumentar a probabilidade de demissão”. Artigo lido na íntegra. ↩
- 25
Nicolau Maquiavel, O Príncipe (1513), capítulo XXIII, “Como se devem evitar os aduladores”, na tradução inglesa de W. K. Marriott: os aduladores, “dos quais as cortes estão cheias”; e: “there is no other way of guarding oneself from flatterers except letting men understand that to tell you the truth does not offend you.” ↩
- 26
William Shakespeare, Rei Lear, ato I, cena 1 (edição Folger): Cordélia: “Nothing, my lord”; Lear: “Nothing will come of nothing”; Cordélia: “I love your Majesty / According to my bond, no more nor less”; Kent: “Think’st thou that duty shall have dread to speak / When power to flattery bows? To plainness honor’s bound / When majesty falls to folly.” ↩
- 27
Daniel 11:21 e 11:34 usam ḥălaqlaqqôt, “lisuras, coisas escorregadias, lisonjas, belas promessas” (BDB), que a ARC traduz em 11:21 por “engano”; 11:32 usa ḥălaqqôt, “lisuras, belas promessas”, única ocorrência. Keil e Delitzsch, a 11:21: “por lisuras, intrigas e astúcia, não apenas por bajulações”. John Gill, a 11:21: Antíoco obteve o reino “por seus discursos lisonjeiros aos nobres e seus presentes aos cidadãos”. John F. Walvoord, Daniel: The Key to Prophetic Revelation, cap. 11 (comentando os vv. 29-31): “Antiochus thus becomes a type of the future man of sin and his activities foreshadow the ultimate blasphemous persecution of Israel.” A nota de C. I. Scofield a Daniel 8:9 chama Antíoco de “um tipo notável da Besta”. ↩
- 28
Matthew Henry, comentário a 1 Reis 22:1-14: “Unity is not always the mark of a true church and a true ministry”; “Here were 400 men that prophesied with one mind and one mouth, and yet all in an error”; os profetas “não pensavam em profetizar nada que não fosse muito doce e muito suave”; ao v. 8: “And whose fault was that?” ↩
- 29
Isaías 30:10: dabbᵉrû-lānû ḥălāqôt, “falai-nos lisuras”; o BDB: “coisas lisas, isto é, agradáveis, lisonjeiras”. Keil e Delitzsch: preferiam ouvir “coisas lisas, insinuantes e lisonjeiras”. É a mesma palavra do Salmo 12:2-3. ↩
- 30
John Wesley, Letter on Preaching Christ, Londres, 20 de dezembro de 1751: “speaking much of the promises, little of the commands”; “they, as it were, feed them with sweetmeats, till the genuine wine of the kingdom seems quite insipid to them”; “They give them cordial upon cordial, which make them all life and spirit for the present; but, meantime, their appetite is destroyed, so that they can neither retain nor digest the pure milk of the word.” Fonte: corpus.historyofmethodism.com (transcrição que o próprio site diz ainda não ter sido conferida com o impresso). ↩
- 31
Gregório Magno, Regra Pastoral II.8 (“que o governante não ponha o coração em agradar aos homens”): “é inimigo do Redentor aquele que, pelas boas obras que faz, deseja ser amado pela Igreja em lugar dEle; pois o servo que o noivo enviou com presentes à noiva é culpado de pensamento traiçoeiro se deseja agradar aos olhos da noiva”; e: o governante, por amor de si mesmo, às vezes “suaviza com bajulações a ofensa dos seus subordinados que devia ter repreendido” (tradução inglesa da Nicene and Post-Nicene Fathers). ↩
- 32
Keil e Delitzsch, Commentary on the Old Testament, Jeremias 5:31: “My people loves it so, yields willingly to such a lead.” Albert Barnes, Notes on the Bible, Jeremias 5:31: “False teaching lightens the yoke of God’s Law, and removes His fear from the conscience.” Jamieson, Fausset e Brown remetem a Miquéias 2:11. Fonte: biblehub.com/commentaries/jeremiah/5-31.htm. ↩
- 33
Grego: episōreúsousin didaskálous, knēthómenoi tḕn akoḗn (texto da SBLGNT). Episōreúō: “amontoar sobre, acumular”; Barnes: “here ‘to multiply’”; Jamieson-Fausset-Brown: “heap — one on another: an indiscriminate mass of false teachers”. Knḗthomai: “ter coceira”; Vincent cita o antigo lexicógrafo Hesíquio: “ouvir por mero prazer”. Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, 2 Timóteo 4:3: “The demand creates the supply. The hearers invite and shape their own preachers.” Ellicott: os ouvintes procurariam “more indulgent teachers, who would flatter and gratify their hearers”. Fonte: biblehub.com/commentaries/2_timothy/4-3.htm. O mesmo versículo foi lido no Sermão 209, a propósito dos hereges; aqui o ângulo é o ouvinte que escolhe o pregador. ↩
- 34
Padre Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real de Lisboa em 1655, seção IX. Vieira cita 2 Timóteo 4:3-4 pela Vulgata: “Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus”. Texto conferido em Sermões Escolhidos, v. 2, São Paulo: Edameris, 1965 (Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro), com grafia modernizada: “Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo.” ↩
- 35
João Crisóstomo, Homilia 30 sobre Atos dos Apóstolos (trad. inglesa NPNF, newadvent.org/fathers/210130.htm): “This has turned the Churches upside down, because both you desire not to hear a discourse calculated to lead you to compunction, but one that may delight you from the sound and composition of the words, as though you were listening to singers and minstrels: and we too act a preposterous and pitiable part in being led by your lusts, when we ought to root them out.” E: “when as I discourse I hear myself applauded… I am delighted… but when I get home, and bethink me that those who applauded received no benefit from my discourse… I am in pain, and groan, and weep.” ↩
- 36
Pulpit Commentary, Ezequiel 33:32: os ouvintes “came to hear the prophet, as they would to hear a hired singer at a banquet”. Jamieson-Fausset-Brown: eles “praise thy eloquence, but care not for the subject of it as a real and personal thing”. Keil e Delitzsch entendem a comparação com o cantor, e não com a canção: “um cantor de canções agradáveis”. O versículo 31 foi lido no Sermão 218. Fonte: biblehub.com/commentaries/ezekiel/33-32.htm. ↩
- 37
William Hart, Dolores Albarracín, Alice H. Eagly, Inge Brechan, Matthew J. Lindberg e Lisa Merrill, “Feeling validated versus being correct: a meta-analysis of selective exposure to information”, Psychological Bulletin 135 (4), 2009, p. 555-588. Comunicado da Associação Americana de Psicologia (1º/7/2009): “data from 91 studies involving nearly 8,000 participants”; “people are about twice as likely to select information that supports their own point of view (67 percent) as to consider an opposing idea (33 percent)”. ↩
- 38
1 Tessalonicenses 2:5: en lógō kolakeías, “com palavra de bajulação”; kolakeía só aparece aqui no Novo Testamento (Thayer; Strong: de kólax, “bajulador”). ↩
- 39
João Crisóstomo, Homilias sobre 1 Tessalonicenses 2 (sobre 2:5): “não bajulamos, que é próprio dos enganadores, que querem tomar posse e dominar”; e: “Does the nurse flatter that she may obtain glory?” ↩
- 40
João Calvino, Comentário a 1 Tessalonicenses, 2:5: “he that is desirous to please men, must of necessity stoop shamefully to flattery”; o ministro fiel “se manterá longe de toda aparência de bajulação”. ↩
- 41
Romanos 16:18: diá tês chrēstologías kaì eulogías. Thayer define chrēstología como “o falar suave e plausível que simula bondade” e cita a Vida de Pértinax 13, de Júlio Capitolino (na História Augusta), onde o imperador era chamado chrēstológos, “qui bene loqueretur et male faceret” (o que falava bem e fazia mal). Judas 16: thaumázontes prósōpa ōpheleías chárin, “admirando rostos por causa de vantagem”; Thayer: “deixar-se influenciar pela aparência exterior, por parcialidade”. ↩
- 42
Roos Vonk, “The slime effect: Suspicion and dislike of likeable behavior toward superiors”, Journal of Personality and Social Psychology 74 (4), 1998, pp. 849-864. Resumo do achado conforme fonte secundária (iResearchNet, verbete “Ingratiation”): quem é agradável com os superiores e desagradável com os subordinados é julgado de forma tão negativa quanto quem é desagradável com todos. Não conseguimos ler o resumo original nem o tamanho das amostras. A origem popular da palavra “puxa-saco” não está comprovada nos dicionários. ↩
- 43
O Pulpit Commentary, em Marcos 13:1, cita Josefo: “some of the stones as forty-five cubits in length, five in height, and six in breadth”. Os números variam entre os comentaristas (Barnes fala em 50 pés; outros dão medidas menores), porque Josefo dá medidas diferentes em lugares diferentes e as conversões variam. O côvado tinha cerca de 45 centímetros. ↩
- 44
Ellicott’s Commentary for English Readers (obra coletiva organizada por Charles J. Ellicott), Marcos 13:1: os discípulos “admired the ‘goodly stones’ more than the ‘widow’s mite’”; “they were still measuring things by their quantity and size”. Matthew Henry, Concise Commentary, Marcos 13:1: “See how little Christ values outward pomp, where there is not real purity of heart.” Fontes: biblehub.com/commentaries/ellicott/mark/13.htm; biblehub.com/commentaries/mark/13-1.htm. ↩
- 45
Tácito, Anais XIV.27 (ano 60 d.C.): “Laodicea tremore terrae prolapsa nullo a nobis remedio propriis opibus revaluit”, isto é, “Laodiceia, derrubada por um terremoto, reergueu-se com os seus próprios recursos, sem nenhum socorro nosso”. Jamieson-Fausset-Brown, Apocalipse 3:17: a autossuficiência espiritual deles “was much fostered by their worldly wealth”; o Pulpit Commentary: “spiritual pride and lukewarmness are frequently produced by worldly prosperity”. Honestidade: o Expositor’s Greek Testament acha que não se deve ligar o versículo à riqueza da cidade, porque Jesus fala de riqueza espiritual. ↩
- 46
Johann Albrecht Bengel, Gnomon do Novo Testamento, João 6:66 (tradução inglesa): “A promiscuous multitude is not of so much consequence as is sincerity”; ele chama a saída dos discípulos de “a most severe purification”. O Pulpit Commentary: “He sifted as well as saved.” Fonte: biblehub.com/commentaries/john/6-66.htm. ↩
- 47
OpenAI, “Sycophancy in GPT-4o: what happened and what we’re doing about it”, 29 de abril de 2025: “We have rolled back last week’s GPT‑4o update in ChatGPT”; “The update we removed was overly flattering or agreeable—often described as sycophantic”; “we focused too much on short-term feedback”. E “Expanding on what we missed with sycophancy”, 2 de maio de 2025: a atualização de 25 de abril “tornou o modelo visivelmente mais bajulador”, chegando a agradar “validando dúvidas, alimentando raiva, incentivando ações impulsivas ou reforçando emoções negativas”; entre as causas, o sinal de aprovação dos usuários (polegar para cima ou para baixo). ↩
- 48
Mrinank Sharma e outros (Anthropic), “Towards Understanding Sycophancy in Language Models”, arXiv:2310.13548, 2023 (ICLR 2024): “cinco assistentes de IA de ponta exibem bajulação de modo consistente”; “tanto os humanos quanto os modelos de preferência preferem respostas bajuladoras convincentes a respostas corretas”; a bajulação é “provavelmente causada em parte pelos julgamentos de preferência humanos”. ↩
- 49
Cícero, De amicitia 98: “Nulla est igitur haec amicitia, cum alter verum audire non vult, alter ad mentiendum paratus est.” Em 91: “nullam in amicitiis pestem esse maiorem quam adulationem, blanditiam, assentationem” (não há peste maior na amizade do que a adulação, a lisonja e a concordância servil). ↩
- 50
Agostinho, Comentário aos Salmos, Salmo 70 (69 na Bíblia latina), seção 5 (trad. inglesa NPNF, newadvent.org/fathers/1801070.htm): “Two are the kinds of persecutors, revilers and flatterers. The tongue of the flatterer does more persecute than the hand of the slayer: for this also the Scripture has called a furnace.” Tomás de Aquino (II-II, q. 115, a. 2, obj. 1) cita ainda uma frase que atribui a Jerônimo, “nada corrompe tão facilmente a mente humana quanto a bajulação”; mas ela vem da carta a Celância (Ep. 148.17), que os estudiosos não atribuem a Jerônimo, e sim, na maioria, a Pelágio. Por isso não a usamos. ↩
- 51
Matthew Henry, Concise Commentary, Provérbios 28:23: “Upon reflection, most will have a better opinion of a faithful reprover than of a soothing flatterer.” O Pulpit Commentary, ao mesmo verso, cita o provérbio latino “Laudat adulator, sed non est verus amator.” ↩
- 52
Paraíso XVII.127-132 (texto de Petrocchi): “Ma nondimen, rimossa ogne menzogna, / tutta tua visïon fa manifesta; / e lascia pur grattar dov’ è la rogna. / Ché se la voce tua sarà molesta / nel primo gusto, vital nodrimento / lascerà poi, quando sarà digesta.” Tradução nossa. O medo de Dante está nos vv. 112-120 (“a molti fia sapor di forte agrume”). Hollander: “For we want truth in our poetry, not blandishment.” ↩
