Na última meditação, deixamos Dante e Virgílio escondidos atrás da tampa de um sepulcro, no romance “A Divina Comédia”.
O fedor que subia do fundo era tão forte que os dois viajantes pararam para esperar o nariz se acostumar, e Virgílio não quis perder o tempo: começou uma aula.
Começou pelo princípio de tudo. O mal que o céu odeia termina em injustiça, e a injustiça se faz de dois jeitos, pela força ou pela fraude, o leão ou a raposa. Hoje ele mostra o mapa do que ainda falta descer.
E no meio da aula vem a frase mais séria do trecho. Virgílio diz que a violência se faz contra três pessoas: “a Deus, a si mesmo e ao próximo”.
O inferno de Dante e o grande mandamento (Mateus 22:37-39)
Perguntaram ao Senhor Jesus qual era o grande mandamento, e Ele respondeu com as mesmas três pessoas: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:37-39).
Deus, o próximo e “a ti mesmo”. O inferno de Dante é o grande mandamento virado do avesso. Em cada anel está alguém que devia amar e levantou a mão.
O que são os três anéis
O que Dante chama de anel é uma faixa redonda. O sétimo círculo do inferno é um andar só, repartido em três faixas, uma dentro da outra, como os anéis de um alvo.
Na faixa de fora fica quem levantou a mão contra o próximo; na do meio, quem levantou a mão contra si; na de dentro, a menor, quem levantou a mão contra Deus. Quanto mais perto do centro, mais grave o pecado.
Virgílio fala na ordem contrária, “a Deus, a si mesmo e ao próximo”, do mais grave para o menos grave. Os teólogos da igreja chamavam isso de ordem do amor: primeiro se ama a Deus; depois a própria alma, isto é, a própria salvação; depois o próximo. Quanto mais amor se deve a alguém, mais grave é levantar a mão contra ele.
Dante nos dá a imagem; a Escritura julga a imagem. Veremos o trecho em três quadros: a mão que se levanta contra o próximo, a mão que se levanta contra si mesmo e a mão que se levanta contra Deus. E, no fim, as mãos que não se levantaram contra ninguém: as mãos de Jesus, furadas pelas três violências no Calvário."
Primeiro anel
A mão contra o próximoos sangues que clamam
Inferno, vv. 28-39
“Quem mata um homem mata um mundo inteiro, tudo o que dele ainda ia nascer.”
“«O primeiro círculo é todo dos violentos; mas, como a violência se faz contra três pessoas, ele é dividido e construído em três anéis.
A Deus, a si mesmo e ao próximo se pode fazer violência, digo, neles e nas suas coisas, como você vai ouvir com razão clara.
Ao próximo se dá morte violenta e feridas dolorosas, e aos seus bens, ruína, incêndio e roubo à força; por isso os homicidas e quem fere com maldade, os que devastam e os que saqueiam, a todos atormenta o primeiro anel, em grupos diversos.»”
Quem está no primeiro anel
Virgílio começa pela beirada, e promete explicar tudo “com razão clara”. A fé não tem medo da razão. O primeiro anel da violência, o mais largo e o menos fundo, é o dos que levantaram a mão contra o próximo: os homicidas, os que ferem por maldade, os que devastam e os que saqueiam.
E ele explica que a força se faz “neles e nas suas coisas”. Ou seja, ali não está só quem matou ou feriu. Está também quem pôs fogo na casa do outro, quem quebrou o negócio do outro, quem tomou à força o que era do outro. Quem destrói o que é do outro fere o outro, mesmo sem encostar nele.
O profeta Miquéias já tinha dito isso com as mesmas palavras. Ele denunciou os que “cobiçam campos e os arrebatam, e casas e as tomam; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (Miquéias 2:2).
Violência “a um homem e à sua casa”: é o “neles e nas suas coisas” de Virgílio, dito dois mil anos antes. E o “Não furtarás” (Êxodo 20:15) está na mesma tábua do “Não matarás”. Tirar do outro o que é dele é levantar a mão contra ele.
E Virgílio completa: “por isso os homicidas e quem fere com maldade, os que devastam e os que saqueiam, a todos atormenta o primeiro anel, em grupos diversos”. Por isso: o castigo tem causa, ninguém está ali por acaso.
A todos: ninguém escapa, nem o tirano, nem o ladrão. E em grupos diversos: não estão todos iguais.
Cada um responde pelo que fez (Apocalipse 20:12)
No canto seguinte vamos ver que o rio de sangue cobre cada um até a altura da sua culpa: uns até as sobrancelhas, outros até a garganta, outros até a cintura, outros só os pés.
A Bíblia diz a mesma coisa do grande trono branco: “os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” (Apocalipse 20:12). Deus não pesa todos com o mesmo peso. Cada um responde pelo que fez.
Por que matar é tão grave? (Gênesis 9:6)
E por que matar é tão grave? A Bíblia responde logo depois do dilúvio, na primeira lei que Deus dá à humanidade que recomeçava: “Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem” (Gênesis 9:6).
O motivo é o mesmo do texto que lemos no começo, Gênesis 1:27: o homem carrega o retrato de Deus, e quem mata um homem rasga esse retrato.
Os antigos mestres judeus explicavam isso com moedas. Um rei da terra faz mil moedas com o mesmo selo, e todas saem iguais. Deus fez todos os homens com o selo do primeiro homem, e nenhum saiu igual ao outro.
E diziam mais: Deus começou a humanidade com um homem só, para que ninguém pudesse dizer ao outro: o meu pai é maior que o teu.
Cada pessoa é uma moeda única com o rosto do Rei. É o que diz Gênesis 1:27: “criou Deus o homem à sua imagem”. E é por isso que a vida do vizinho que você não suporta vale o mesmo que a sua.
Os sangues de Abel que clamam (Gênesis 4:10)
Os mesmos mestres pararam num detalhe do hebraico, no primeiro assassinato da história. Deus diz a Caim: “A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” (Gênesis 4:10). No original, a palavra não está no singular.
Está no plural: “os sangues” do teu irmão. E eles entenderam assim: clamava o sangue de Abel e o sangue de todos os filhos, netos e bisnetos que Abel nunca chegou a ter. Quem mata um homem mata um mundo inteiro, tudo o que dele ainda ia nascer.
E um verso antes Caim já tinha mostrado o que havia no coração dele. Quando Deus perguntou onde estava Abel, ele respondeu: “Não sei; sou eu guardador do meu irmão?” (Gênesis 4:9). Para Caim, o irmão não era problema seu. Quem mata o irmão primeiro deixa de se importar com ele.
E não é só o sangue que clama. Tiago usa a mesma palavra para outra violência: “Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tiago 5:4).
Jornal, ali, é o salário do dia. O sangue de Abel clama, e o salário que o patrão segurou também clama. Deus ouve os dois.
O ódio guardado já é homicídio (Mateus 5:21-22)
O Senhor Jesus foi mais fundo e mostrou que o homicídio sai do coração: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo” (Mateus 5:21-22).
E João completou: “Qualquer que aborrece a seu irmão é homicida” (1 João 3:15). Dante pôs no rio de sangue quem derramou sangue. Jesus mostra que a mão só levanta o que o coração já tinha decidido. Quem guarda ódio já está com um pé no primeiro anel.
E a ciência achou o estrago do ódio guardado no corpo de quem o guarda. Uma grande revisão de estudos, publicada em 2009 na revista do Colégio Americano de Cardiologia, encontrou que a raiva e a hostilidade estão ligadas a 19% mais problemas do coração em pessoas saudáveis, e a 24% mais em quem já tinha doença cardíaca.
Quem guarda ódio do irmão é o primeiro a adoecer. Por isso Paulo põe prazo na ira: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Efésios 4:26). Não é para dormir com raiva de ninguém.
O que fazer esta semana
Isto é para dentro da nossa casa. Há mãos que se levantam dentro de casa, contra a esposa, contra o marido, contra o filho, e que ninguém na igreja vê. Se a sua mão já se levantou contra alguém da sua família, esta semana você procura o pastor ou um presbítero, antes que a mão vire costume.
E há a outra violência, a das “coisas”. Se você está com a mão em algo que é do seu próximo, a dívida que não paga, o dinheiro emprestado que fingiu esquecer, ligue esta semana para essa pessoa e marque a data de pagar.
E se você é patrão e está segurando o salário de alguém, pague esta semana. E se você guarda ódio de alguém, resolva isso com Deus hoje, antes de dormir, e com a pessoa esta semana.
Segundo anel
A mão contra si mesmochorar onde devia estar alegre
Inferno, vv. 40-45
“A Bíblia responde: enquanto há fôlego, há tempo.”
“«O homem pode ter mão violenta contra si mesmo e contra os seus bens; e por isso, no segundo anel, se arrepende sem proveito quem tira a si mesmo do vosso mundo, quem joga e derrete o que tem, e chora ali onde devia estar alegre.»”
O suicídio é pecado?
O suicídio é pecado, e a Escritura o condena como condena qualquer outro pecado. O ato é condenado, e a pessoa é tratada com misericórdia.
O suicida e o jogador no mesmo anel
No segundo anel, Virgílio junta duas figuras que a gente não esperaria ver lado a lado. Uma é “quem tira a si mesmo do vosso mundo”: o suicida. Virgílio já está morto, e chama a terra de “vosso mundo”: o mundo que Deus deu aos vivos. A outra é quem “joga e derrete o que tem”.
O verbo que Dante escolheu vem da palavra que, no italiano antigo, queria dizer casa de jogo. É o homem que torra na mesa de apostas tudo o que tem.
Um estudioso do poema chama o que ele faz de “suicídio material”: ele não tira a vida, mas joga fora, de propósito, aquilo de que ele e a família vivem. E ele não fere só a si mesmo. Um filósofo grego já dizia que o jogador tira dinheiro dos amigos, justamente daqueles a quem devia dar.
Por que a Bíblia condena o suicídio
Os dois estão no mesmo anel porque levantam a mão contra a mesma pessoa: contra si. E o maior teólogo da Idade Média deu três razões contra o suicídio, e são as mesmas três pessoas da aula de Virgílio.
Quem tira a própria vida ofende a si mesmo, porque vai contra o amor que todo homem deve à própria vida. Ofende o próximo, porque a família, os amigos e a igreja ficam com um buraco que nada preenche.
E ofende a Deus, porque a vida é dom dEle, e só a Ele pertence a sentença de vida e de morte: “eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão” (Deuteronômio 32:39). No suicídio, o homem peca contra as três pessoas de uma vez.
A Escritura não precisou escrever “não te mates”, porque já tinha escrito “Não matarás” (Êxodo 20:13). O mandamento não diz a quem não matar.
Três versos adiante, a Lei diz: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo 20:16). Ali ela disse quem protegia; no “não matarás”, não disse, porque protege toda vida humana, a do outro e a sua.
Agostinho um pai da igreja antiga já tinha notado isso: não matarás nem o outro, nem a ti mesmo, porque o próximo se ama “como a ti mesmo”.
E o motivo é o de Gênesis 9: a imagem de Deus que está no seu vizinho também está em você. Por isso a Escritura condena o suicídio: é homicídio contra a imagem de Deus.
O suicídio nunca é saída (1 Coríntios 10:13)
E a Bíblia mostra que o suicídio nunca é saída. Ela conta seis casos de gente que tirou a própria vida, e nenhum deles é exemplo: são homens derrotados, encurralados, desesperados. São histórias de tragédia.
O desesperado acha que a morte resolve. Não resolve, porque a vida dele nem é dele para jogar fora: “não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1 Coríntios 6:19-20). O seu corpo não é seu. Foi comprado com sangue.
Saída de verdade, só Deus dá. Paulo escreveu: “fiel é Deus, que vos não deixará tentar acima do que podeis; antes, com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13).
A palavra grega traduzida por “escape” quer dizer, ao pé da letra, saída. Deus não deixa o crente sem saída, e a saída dEle leva para a vida, nunca para a morte.
O mesmo pai da igreja desmontou a ideia de que tirar a própria vida é coragem. Coragem, disse ele, é enfrentar os males da vida, não fugir deles; fugir pela morte é fraqueza.
E mostrou que nenhum patriarca, nenhum profeta, nenhum apóstolo deu esse exemplo. Jó perdeu os filhos, os bens e a saúde, e, quando a própria mulher lhe disse “Amaldiçoa a Deus e morre”, ele respondeu: “receberemos o bem de Deus e não receberíamos o mal?” (Jó 2:9-10).
E o Senhor Jesus, quando avisou os discípulos da perseguição, não os mandou morrer; mandou fugir: “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra” (Mateus 10:23). Deu uma saída. Nunca a morte.
Judas e o arrependimento que não veio
Os versos dizem que essas almas “se arrependem sem proveito”. O teólogo medieval explicou o porquê: quem se mata por causa de um pecado rouba de si mesmo o tempo do arrependimento.
E o pai da igreja deu o exemplo mais triste. Judas, ao se enforcar, não pagou a traição; piorou-a, porque desesperou da misericórdia de Deus e não deixou lugar para o arrependimento que cura. Saiu desta vida culpado de duas mortes: a de Cristo e a sua.
Quem está desesperado pensa: não tem mais jeito. A Bíblia responde: enquanto há fôlego, há tempo.
O que a Bíblia diz sobre apostas e jogos de azar
E agora o jogo. Dante pôs o suicida e o jogador no mesmo lugar, e a ciência de hoje encontrou os dois juntos.
Um estudo feito com os registros de saúde de toda a Suécia descobriu que, entre as pessoas diagnosticadas com vício em jogo, as mortes por suicídio eram quinze vezes mais frequentes do que no resto da população.
Os próprios pesquisadores avisam que a depressão e as dívidas pesam junto; o jogo raramente anda sozinho. Dante tinha visto isso setecentos anos antes.
E isto não é coisa da Suécia. Em agosto de 2024, segundo o Banco Central, cerca de cinco milhões de brasileiros que recebem o Bolsa Família mandaram pelo Pix uns três bilhões de reais para as casas de apostas, num único mês. O dinheiro de quem mais precisa foi parar na aposta.
E o verso de Dante conta o fim dessa história numa linha só: esse homem “chora ali onde devia estar alegre”. Aposta para se alegrar e termina chorando. E chora onde? No mundo que Deus fez para ele se alegrar.
Paulo diz que Deus é aquele “que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos” (1 Timóteo 6:17). O mundo foi feito para a alegria; o jogador faz dele um lugar de choro.
Alguém do lado (Atos 16:28)
E como a Bíblia trata o homem que chega a esse ponto? Com alguém do lado. Na prisão de Filipos, o carcereiro acordou, viu as portas abertas, tirou a espada e ia matar-se. E Paulo gritou do escuro: “Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos” (Atos 16:28).
Não veio primeiro um sermão; veio o grito de alguém presente. E naquela mesma noite aquele homem e toda a sua casa foram salvos. Às vezes o que separa um homem da morte é alguém dizendo: eu ainda estou aqui.
O que fazer esta semana
Se você já pensou em tirar a própria vida, hoje, antes de ir embora, fale comigo ou com um dos presbíteros. Se você tem aplicativo de aposta no celular, apague hoje, antes de dormir, e conte para alguém da sua casa. Se a dívida já apertou, venha conversar esta semana, antes que ela aperte mais.
E todos nós: esta semana, cada um liga para um irmão que sumiu dos cultos. Caim perguntou se era guardador do irmão. Você é. A sua pode ser a voz que diz: eu ainda estou aqui.
Terceiro anel
A mão contra Deuso menor anel
Inferno, vv. 46-51
“A boca só fala o que o coração já negou.”
“«Pode-se fazer violência a Deus, negando-O no coração e blasfemando dEle, e desprezando a natureza e a sua bondade; e por isso o menor anel sela com o seu sinal tanto Sodoma como Caorsa e quem fala desprezando a Deus no coração.»”
Como se levanta a mão contra Deus
O terceiro anel é o menor, porque o inferno vai se estreitando como um funil, e é o mais grave dos três, porque ali a mão se levanta contra o próprio Deus.
Virgílio diz como: “negando-O no coração e blasfemando dEle, e desprezando a natureza e a sua bondade”. E diz que esse anel marca três tipos de gente: os de Sodoma, os de Caorsa e “quem fala desprezando a Deus no coração”.
Mas como alguém levanta a mão contra Deus, se ninguém pode tocar nEle? Tocando no que é dEle. No nome dEle, e isso é a blasfêmia.
Na obra dEle: Dante diz “desprezando a natureza e a sua bondade”, e essa bondade está no fim do sexto dia, o dia em que o homem foi criado: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31).
E no povo dEle. Quando Saulo perseguia a igreja, ele caiu na estrada de Damasco e ouviu Jesus perguntar: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9:4). Saulo nunca tinha encostado em Jesus. Encostou nos crentes, e Jesus disse: foi em mim.
A Lei tratava a blasfêmia com um peso que assusta. Quando um homem blasfemou o nome do Senhor no acampamento de Israel, Deus mandou: “aquele que blasfemar o nome do Senhor certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará” (Levítico 24:16).
E no mesmo capítulo vem a pena do homicídio. Aquela pena era da lei civil de Israel e não é para a igreja, mas o peso do pecado continua o mesmo.
Por isso Dante pôs os blasfemos no anel mais fundo: ofender o nome de Deus é mais grave do que ferir um homem.
O que é blasfêmia?
Blasfêmia é coisa de coração antes de ser coisa de boca. Dante escreve “no coração” duas vezes, no começo e no fim. A boca só fala o que o coração já negou. O salmista descreveu esse homem por dentro: por orgulho ele não busca a Deus, e todos os seus pensamentos se resumem a isto, não há Deus (Salmo 10:4).
O crente que blasfema com a vida (Tito 1:16)
E Paulo mostrou que isso pode acontecer dentro da igreja: “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras” (Tito 1:16). Tem gente que nunca xingou a Deus e, mesmo assim, blasfema: vive como se Deus não estivesse olhando.
É o crente de domingo que, na segunda-feira, fecha o negócio, trata a esposa e fala do vizinho como se Deus tivesse ficado trancado no templo.
Não tomarás o nome de Deus em vão (Êxodo 20:7)
E há um mandamento feito para esse crente. O terceiro mandamento diz: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão” (Êxodo 20:7).
O verbo hebraico que a nossa Bíblia traduziu por “tomar” quer dizer, antes de tudo, carregar. O sumo sacerdote levava na testa uma lâmina de ouro com as palavras “Santidade ao Senhor”, e Israel inteiro carregava o nome de Deus diante das nações.
Uma estudiosa do Antigo Testamento mostrou que o mandamento proíbe também isto: carregar o nome de Deus e viver como se esse nome não valesse nada. Dá para nunca dizer uma palavra contra Deus e, mesmo assim, carregar o nome dEle em vão.
O desprezo pela ordem de Deus (Romanos 1)
Depois vem o desprezo pela natureza, isto é, pela ordem que Deus pôs nas coisas. Caorsa era uma cidade do sul da França tão famosa pelos seus agiotas que o nome dela virou sinônimo de agiota.
Dante vai explicar esse pecado no fim do canto, e nós também, mais adiante nesta série. Por hoje basta isto: para o poeta, o agiota e o sodomita estão no mesmo anel porque os dois usam errado aquilo que Deus fez para dar fruto: um usa errado o corpo; o outro, o dinheiro.
Paulo diz a mesma coisa, e na mesma ordem. Primeiro o homem despreza a Deus: “mudaram a verdade de Deus em mentira e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador” (Romanos 1:25).
Depois despreza a natureza, e Paulo usa a mesma palavra de Dante: “até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros” (Romanos 1:26-27).
Quem deixa Deus de lado acaba desprezando também o jeito que Deus fez as coisas.
Qual foi o pecado de Sodoma?
E Sodoma. A Bíblia chama esse pecado pelo nome, mas nunca o chama sozinho. Paulo o põe numa lista: “nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus”.
E logo em seguida continua: “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:9-11).
Duas coisas nesse texto. A primeira: o avarento e o maldizente estão na mesma lista, e eles se sentam em todos os bancos de todas as igrejas. A igreja não pode condenar um pecado e passar a mão na cabeça dos outros.
A segunda: “é o que alguns têm sido”, no passado. Em Corinto havia gente que tinha vivido isso e agora estava lavada. O que decide o destino de um homem não é o pecado que ele cometeu; é se ele se arrependeu e foi lavado no sangue de Jesus.
O profeta Ezequiel diz que o pecado de Sodoma foi “soberba, fartura de pão e abundância de ociosidade… mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram e fizeram abominação diante de mim” (Ezequiel 16:49-50).
Há quem leia só a primeira metade, e há quem leia só a segunda. O profeta falou das duas coisas juntas: o descaso com o pobre e a abominação.
A marca e o selo do Espírito Santo (Efésios 1:13)
Virgílio diz que esse anel “sela com o seu sinal” os que estão ali. Quer dizer: põe uma marca neles, como se marca aquilo que tem dono.
A Bíblia também fala de selo, mas do selo de Deus. O crente foi marcado pelo Espírito Santo: “tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1:13).
E Paulo avisa: “não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual estais selados para o Dia da redenção” (Efésios 4:30). Todo homem leva uma marca: ou a marca do pecado, ou o selo do Espírito Santo.
O que fazer esta semana
Se há alguém aqui lutando em segredo contra o pecado de Sodoma, com medo da igreja, esta porta está aberta, e a do gabinete pastoral também. Venha esta semana, não para ser exposto, mas para ser ajudado.
E se você é o crente que blasfema com a vida, que canta no domingo e vive a semana como se Deus não visse, escolha uma área da sua semana, o trabalho, a casa ou o celular, e viva nela como quem sabe que Deus está olhando.
E se da sua boca já saiu palavra contra Deus, numa hora de raiva ou de luto, peça perdão hoje.
ConclusãoAs três violências no Calvário
“O suicida tira a própria vida. Jesus deu a dEle por nós. Uma coisa é tirar; outra é dar.”
A aula de Virgílio desenhou três mãos fechadas: contra o próximo, contra si mesmo e contra Deus. No Calvário, as três caíram sobre um homem só: Jesus.
A mão contra o próximo pregou Jesus numa cruz. E o que Ele fez com essa violência? Orou pelos que O pregavam: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34).
A blasfêmia do terceiro anel também estava lá. Enquanto Ele morria, “os que passavam blasfemavam dele, meneando a cabeça” (Mateus 27:39).
E Pedro conta como Ele respondeu: “quando o injuriavam, não injuriava; e, quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” (1 Pedro 2:23).
E o segundo anel? Jesus não jogou a vida fora; Ele a deu. Ele mesmo disse que veio “para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20:28). O suicida tira a própria vida. Jesus deu a dEle por nós. Uma coisa é tirar; outra é dar.
Foi assim que Jesus endireitou o grande mandamento que Dante mostrou de cabeça para baixo: amou o Pai até o fim, amou o próximo a ponto de orar por quem O matava, e deu a própria vida por nós.
Então, se a sua mão está levantada, contra alguém, contra você mesmo ou contra Deus, abaixe a mão hoje. Peça perdão a quem você feriu. Pare de fazer mal a si mesmo. Entregue a sua vida a Deus, como Jesus se entregou. Quem se entrega a Jesus não termina em anel nenhum. Termina com Ele.