Sermões O Céu A Bíblia versus o Secularismo Dante Alighieri e A Divina Comédia
Episódio 219
O nariz que se acostumou
Por que Deus odeia mais a fraude do que a violência? E como alguém se acostuma com o cheiro do inferno sem perceber? No Canto XI da Divina Comédia, Dante para a caminhada e explica como o inferno inteiro funciona, e a Escritura julga a imagem.
O sermão
INTRODUÇÃO:
O romance “A Divina Comédia” de Dante nos deixou, na última meditação, saindo do campo dos túmulos: Virgílio virou à esquerda, e do fundo do vale subia um cheiro que já incomodava lá em cima. Hoje entramos no Canto XI — e ele começa com esse cheiro.
Os dois viajantes chegam à beira de um despenhadeiro, e o fedor que sobe do abismo é tão forte que eles recuam e se abrigam atrás da tampa de um sepulcro. E nesse sepulcro há um nome escrito: um papa.
O Canto XI é o mais curto do poema — 115 versos — e, à primeira vista, o menos emocionante: não há monstro, não há grito, não há rio de sangue. Há uma pausa, e nela um mestre explicando ao discípulo como o inferno inteiro está organizado.
Os estudiosos brincam que a turma foi para a sala de aula. Mas é justamente aqui que Dante entrega a chave de tudo o que vem depois: a hierarquia dos pecados — o que ofende mais a Deus, o que ofende menos, e por quê.
E antes de entrar, fique dito o que vale para toda esta série: Dante nos dá a imagem; a Escritura julga a imagem. Hoje, mais do que nunca, porque o poeta vai ordenar os pecados por uma régua filosófica — e nós vamos conferir cada centímetro dessa régua com a Bíblia aberta.
Veremos o trecho em quatro quadros: um papa na arca de pedra; a frase mais assustadora do canto — “e depois já não incomoda” —, que a ciência do olfato confirma palavra por palavra; a pausa que o discípulo não deixou virar tempo perdido; e a raposa e o leão — por que Deus odeia mais a fraude do que a violência. E, no fim, o outro cheiro.
1. Um papa na arca (vv. 1-9)
“Sobre a borda de um alto barranco
formado por grandes pedras quebradas em círculo,
chegamos acima de um amontoado mais cruel;
e ali, pelo horrível excesso
do fedor que o abismo profundo lança,
recuamos, abrigando-nos atrás da tampa
de um grande sepulcro, onde vi uma inscrição
que dizia: «Guardo o papa Anastácio,
a quem Fotino tirou do caminho reto.»”
Antes do nome, um detalhe do cenário que vamos reencontrar no próximo canto: o barranco é feito de “grandes pedras quebradas em círculo”. O poema vai explicar de onde veio essa ruína — do terremoto da Sexta-Feira Santa, quando “as rochas se fenderam” (Mateus 27:51) e o Senhor desceu para tirar dali os seus. Até a geografia do inferno traz a marca da cruz.
Atrás desse barranco rachado, Dante lê num sepulcro em brasa o nome de Anastácio II, papa de 496 a 498. Quem o tirou do caminho foi Fotino, bispo de província, cuja heresia era esta: Cristo era só homem, concebido de Maria por José, em união natural. A negação do nascimento virginal e da filiação divina.
E o relato não é invenção do poeta: os registros da própria Igreja, escritos por gente próxima dos fatos, contam que esse papa foi “ferido por ordem divina” e morreu de repente. Dante pôs na arca o que a Igreja registrou.
A lição, que não depende de o nome estar certo, está na direção do engano: um bispo de província tirou um papa do caminho reto. Foi o subordinado que arrastou o chefe: a heresia sobe a hierarquia. Ela não respeita cargo, título, unção, nem tempo de igreja.
Paulo já avisara os presbíteros de Éfeso, chorando: “de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas” (Atos 20:30) — de entre vós, não de fora.
E o Senhor Jesus avisou até onde o engano chega: “surgirão falsos cristos e falsos profetas… de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24:24). Nem apóstolo, nem bispo, nem papa: ninguém está protegido pelo cargo. Pelo contrário, o cargo agrava.
A confissão protestante diz que um pecado pesa mais quando o pecador é “eminente por profissão, dons, posição, ofício, guia de outros, cujo exemplo tende a ser seguido”. O Senhor deu a régua: “a quem muito foi dado, muito se lhe pedirá” (Lucas 12:48). Um papa, um líder herege, não pesa menos por ser da liderança. Pesa mais.
Mas fique claro o que o poema chama de heresia, para que ninguém saia daqui chamando de herege quem apenas se enganou. Os comentadores antigos chamam os que estão nestas arcas de pertinazes — obstinados — e seguem esta definição: se o homem não é pertinaz na sua descrença, não é herege — é apenas alguém em erro.
O papa não está na arca por ter errado uma vez; está por ter persistido. E o Novo Testamento conta as advertências: “ao homem herege, depois de uma e outra admoestação, evita-o” (Tito 3:10). Uma e outra: duas. Errar é humano; recusar a segunda correção é heresia.
A doutrina em jogo é a que decide tudo. Se Cristo é só homem, a cruz é só uma execução, o túmulo é só um túmulo, e a Bíblia inteira desaba. João deu o teste que serve até hoje: “todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não é de Deus” (1 João 4:2-3). O teste não é o cargo de quem fala; é o que ele diz de Cristo. Um papa pode falhar nele. Um diácono pode passar.
Isto é para a nossa casa, e sem medo. Quem é a autoridade espiritual que você segue sem conferir — o pregador da internet, o líder de ministério, o pastor que você ama? Não pergunte se ele é grande; pergunte o que ele diz de Cristo. Esta semana, pegue o último ensino que você recebeu e passe-o por 1 João 4. Se ele confessa Jesus Cristo vindo em carne, Deus e homem, ouça. Se enrola nisso, fuja — por mais alto que seja o cargo.
2. “E depois já não incomoda”: a pedagogia do inferno (vv. 10-12)
“«A nossa descida convém que seja lenta,
para que o olfato antes se acostume um pouco
ao triste bafo; e depois já não incomoda.»”
Antes da frase, o órgão. Repare que o poema escolhe o nariz como a porta por onde o inferno entra — e o nosso texto-base diz de onde vem esse nariz: “e o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou nas suas narinas o fôlego da vida” (Gênesis 2:7).
Pelas narinas Deus soprou a vida; por elas o abismo sopra o seu “triste bafo”. O mesmo caminho, dois sopros: um deu vida a Adão; o outro anestesia o homem até ele não sentir mais nada.
E agora a frase — para mim a mais assustadora do Canto XI —, dita pelo guia com a maior naturalidade. Virgílio explica como se desce ao inferno: devagar, para que o nariz se acostume ao fedor; e depois, diz ele, “já não incomoda”. Eis a pedagogia do inferno: o abismo não se conquista de um salto; conquista-se por habituação.
E a ciência confirmou isso setecentos anos depois do poema. Em 2009, dois pesquisadores da Escola de Negócios de Harvard publicaram quatro experimentos em que os participantes faziam o papel de fiscais — a tarefa era flagrar trapaças. Quando a trapaça crescia devagar, um pouco a cada rodada, 52% dos fiscais a aprovavam. Quando a mesma trapaça aparecia de uma vez, só 24%.
Batizaram o fenômeno de efeito ladeira escorregadia — e mostraram que a causa não é tolerância consciente: é a incapacidade de perceber a erosão quando ela é gradual. Virgílio tinha razão: o inferno não é conquistado por quem despenca; é conquistado por quem desce devagar o suficiente para ninguém — nem ele mesmo — perceber.
Tiago descreveu essa ladeira dezenove séculos antes de Harvard: “cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tiago 1:14-15).
Quatro estágios — atração, concepção, nascimento, morte — e nenhum salto. Ninguém acorda no fundo do poço; desce por gestação. É por isso que o obreiro que “caiu” não caiu: desceu um degrau por mês, e a igreja aprovou cada degrau porque nenhum deles, sozinho, parecia queda.
E o maior dos pais da igreja, nas suas Confissões, contou a própria descida em quatro elos, como os estágios de Tiago: “O inimigo segurava a minha vontade, e dela me fizera uma cadeia, e me amarrara.
Pois da vontade perversa nasceu a paixão; da paixão servida, nasceu o hábito; e do hábito não resistido, nasceu a necessidade. Com esses elos, como argolas encadeadas umas nas outras, uma dura servidão me prendia.”
E a frase mais dura vem antes: ele diz que estava “preso não por ferro alheio, mas pela minha própria vontade de ferro.” Aí está o que Virgílio não diz: a cadeia não é forjada pelo inferno; é forjada pelo próprio homem, elo por elo.
O Senhor Jesus resumiu a metalurgia inteira numa frase: “todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34). Servo (doulos, escravo) — não cliente, que vai embora quando quer; não usuário, que acha que controla: servo.
E a ciência do olfato fala a mesma língua do poema. Chama isso de adaptação olfativa: quando um cheiro fica constante, o nariz para de reportá-lo. Mais da metade dessa adaptação acontece nos dois primeiros minutos.
E não é o nariz que cansa — é o cérebro que decide: “este estímulo é constante; logo, é irrelevante; logo, será suprimido.” O sinal continua chegando, mas o cérebro o apaga antes que a pessoa perceba. O sistema foi feito para detectar mudança, não constância.
A Escritura já havia descrito esse mecanismo no pecado. Paulo fala de gente “que tem cauterizada a sua própria consciência” (1 Timóteo 4:2) — cauterizada, o ferro quente que mata a sensibilidade do tecido.
E descreve o estágio final: “os quais, havendo perdido todo o sentimento” — na tradução exata, já não sentindo dor alguma —, “se entregaram à dissolução” (Efésios 4:19).
Jeremias registrou o mesmo com espanto: “porventura envergonham-se de cometer abominação? Pelo contrário, de maneira nenhuma se envergonham, nem sabem que coisa é envergonhar-se” (Jeremias 6:15). Não decidiram deixar de se envergonhar: o órgão da vergonha parou de funcionar — por adaptação.
E a ciência ensina mais duas coisas que a igreja precisa saber. A primeira: o cheiro da sua própria casa você não sente — a visita sente na hora. O morador se adaptou; quem chega de fora tem o nariz limpo.
É por isso que o pecado de anos vira invisível para quem o pratica e evidente para quem observa: o marido não vê a aspereza com que fala; a esposa não vê o desprezo no tom; o pastor não vê a vaidade no púlpito — e a igreja inteira vê.
Por isso o autor de Hebreus manda que a correção venha de fora, e todo dia: “exortai-vos uns aos outros todos os dias… para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado” (Hebreus 3:13). Engano — porque o pecado engana justamente o nariz de quem o pratica.
A segunda é a mais importante: o sistema só recupera a sensibilidade quando o estímulo é removido — e não antes.
Só se recupera o olfato saindo para o ar limpo. É a doutrina bíblica da separação, que o nosso tempo acha antiquada e que a neurociência acaba de confirmar: “não entres na vereda dos ímpios, nem andes pelo caminho dos maus. Evita-o; não passes por ele; desvia-te dele e passa de largo” (Provérbios 4:14-15).
Quatro ordens de distância num versículo. A Bíblia não manda administrar o cheiro; manda sair dele.
E antes da aplicação, uma testemunha, porque nem todo homem que sentiu o cheiro do inferno se acostumou com ele. Quase seiscentos anos antes de Dante, um historiador inglês registrou a visão de um homem comum, pai de família: morreu de uma doença, foi levado por um guia a um vale entre chamas e granizo, chegou a um poço de onde subiam labaredas escuras com almas subindo e descendo como faíscas — e sentiu, nas palavras dele, “um fedor sem comparação”.
Voltou à vida na manhã seguinte. E o que fez? Repartiu tudo o que tinha em três partes — para a esposa, para os filhos e para os pobres — e foi viver o resto da vida em oração. Sentiu o cheiro uma vez e nunca mais quis chegar perto.
Ponha os dois lado a lado. Virgílio ensina a descer devagar até o nariz se acostumar; o homem da visão sentiu o cheiro e subiu correndo. O mesmo fedor, dois resultados: um anestesia quem fica; o outro desperta quem sai.
E a Escritura diz o que fez a diferença — não foi a visão, foi o ouvido: “se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que algum dos mortos ressuscite” (Lucas 16:31).
Aquele homem já ouvia a Moisés; por isso o cheiro o converteu em vez de anestesiá-lo. Quem não ouve a Palavra se acostuma com qualquer cheiro — até com o do inferno.
Então, o que fazer com isso? São duas coisas. Primeira: nomeie hoje o cheiro da sua casa — o pecado que já virou móvel, que você não sente mais mas que todo mundo à sua volta sente.
Se não conseguir identificá-lo sozinho, é porque a adaptação já aconteceu; então pergunte a alguém de fora esta semana, alguém que o ame o bastante para dizer: “o que em mim já virou cheiro de casa?” Segunda: saia do estímulo. Não reduza, não administre, não negocie — saia.
Um professor de Harvard resumiu a vida inteira numa frase: “é mais fácil fazer o certo cem por cento das vezes do que noventa e oito” — porque a primeira exceção é o primeiro degrau, e depois dela todos os outros parecem pequenos.
Quando a regra é cem por cento, não há o que negociar; quando é noventa e oito, toda tentação chega dizendo “só desta vez”. Virgílio tem razão num ponto: quem fica dentro do cheiro para de sentir, e quem para de sentir desce.
3. “Acha algum proveito, para o tempo não passar perdido” (vv. 13-15)
“Assim falou o mestre; e eu: «Acha algum proveito»,
disse-lhe, «para que o tempo não passe
perdido.» E ele: «Vês que nisso penso.»”
Olhe o discípulo. Virgílio propõe uma pausa forçada — vamos esperar o nariz se acostumar —, e Dante não aceita que a pausa seja vazia. A pausa virou aula.
É desse pedido de discípulo que sai o discurso mais importante do Inferno: nos versos seguintes Virgílio vai explicar a arquitetura inteira do abismo.
Há duas lições aqui para a nossa geração. A primeira é sobre o tempo parado. Toda vida tem paradas obrigatórias — a doença, o desemprego, a espera, o luto, a fila. O secularismo ensina a preenchê-las com distração: a tela, o ruído, o passatempo. O discípulo de Dante pede outra coisa: proveito.
Paulo deu a ordem que faz dessa pausa uma escola: “remindo o tempo, porquanto os dias são maus” (Efésios 5:16) — remir é resgatar, comprar de volta. O tempo parado não é tempo perdido; é tempo à venda, e alguém vai comprá-lo — ou Deus, ou o barulho.
A segunda lição é sobre a aula chata. O Canto XI não tem cena, não tem drama, não tem lágrima; é doutrina pura. Mas sem ele nenhum outro faz sentido: é ele que explica por que cada pecador está onde está. Há gente na igreja que só quer o Canto V — a paixão — e o Canto X — o drama —, e boceja no culto de exposição de quarta, e acha chata a aula da EBD.
Quem não aprendeu a hierarquia dos pecados não entende nem o próprio coração. Não é à toa que o poeta numerou este canto com onze: desde os pais da Igreja, onze é o número da transgressão — o que excede os Dez Mandamentos. O canto que cataloga todo pecado leva o número do pecado.
E não deixe para depois: qual é a sua próxima pausa forçada — a consulta que vai demorar, a viagem, a semana sem trabalho, a noite sem sono? Decida agora o que vai fazer dela, antes que ela chegue e o celular decida por você.
Um salmo por dia de espera; um capítulo de Provérbios por consulta; uma oração nomeada por fila. Faça o pedido de Dante: “Senhor, acha algum proveito.” Ele vai responder o que Virgílio respondeu — “vês que nisso penso.”
4. A raposa e o leão: por que Deus odeia mais a fraude (vv. 16-27)
“«Meu filho, dentro destas pedras»,
começou então a dizer, «há três círculos menores,
de grau em grau, como os que deixas para trás.
Todos estão cheios de espíritos malditos;
mas, para que depois só a vista te baste,
entende como e por que estão presos.
De toda malícia que atrai o ódio do céu,
a injúria é o fim; e todo fim desse tipo
ou com força ou com fraude aflige o próximo.
Mas porque a fraude é o mal próprio do homem,
desagrada mais a Deus; e por isso ficam embaixo
os fraudulentos, e mais dor os assalta.»”
E chegamos ao verso que organiza o inferno inteiro. Toda malícia, diz Virgílio, termina em injúria — dano ao próximo —, pela força ou pela fraude; e a fraude, por ser “o mal próprio do homem”, “desagrada mais a Deus”.
Por isso os violentos ficam no sétimo círculo, e os fraudulentos mais fundo, no oitavo e no nono. Deus odeia mais a fraude do que a violência.
A fonte de Dante é um filósofo romano, pagão, que escreveu mil e trezentos anos antes: “há dois modos de fazer injúria — pela força ou pela fraude; a fraude parece coisa de raposinha, a força coisa de leão; ambas são inteiramente indignas do homem, mas a fraude merece mais ódio.” E Deus odeia mais a raposa.
Por quê? A resposta está na expressão “mal próprio do homem” — e ela amarra direto no nosso texto-base. A força, qualquer animal tem: o touro tem, o cão tem, o leão tem.
Mas fraude exige razão. Exige calcular, planejar, fingir, prever o pensamento do outro. Exige justamente aquilo que Deus deu só ao homem quando o fez “à sua imagem” (Gênesis 1:27).
A fraude é pior porque usa a imagem de Deus como arma contra o próximo. O violento peca com o que tem em comum com os bichos; o fraudador peca com o que tem em comum com Deus. É por isso que ele desce mais fundo.
E os grandes teólogos da igreja chegaram lá por outro caminho: os pecados espirituais têm mais culpa que os carnais — porque o espírito é o que se volta para Deus ou se desvia dEle.
E um pai da igreja resumiu numa linha que nunca me saiu da cabeça: “os pecados carnais têm menos culpa e mais vergonha.” Menos culpa diante de Deus; mais vergonha diante dos homens. E os pecados do espírito — a soberba, a fraude, a inveja, a traição — mais culpa, e menos vergonha.
Agora veja o que isso faz com a igreja, porque dói. Nós punimos pela vergonha; Deus julga pela culpa. O adúltero, nós expulsamos; o fraudador, nós promovemos à diretoria.
A moça que caiu em pecado sexual sai chorando pela porta dos fundos; o irmão que passa a perna no sócio, que mente na declaração, que engana o cliente, entra pela porta da frente e senta na primeira fila. Dante pôs o adúltero no segundo círculo e o fraudador no oitavo — e a igreja, muitas vezes, inverte a ordem.
Agora a Escritura julga a imagem. A escada de Virgílio não veio da Bíblia, mas de um filósofo grego e de um romano. Só que eles não inventaram a régua: enxergaram, pela consciência que Deus pôs no homem, o que a Palavra já ensinava — “a lei escrita no seu coração” (Romanos 2:15).
Nenhuma outra visão cristã do além, dizem os estudiosos, usou um pagão para organizar o inferno. Então: a Bíblia tem mesmo uma escada de pecados, ou pecado é tudo igual?
Tem — e a Reforma a confessou por escrito: “nem todas as transgressões da lei de Deus são igualmente hediondas; alguns pecados, em si mesmos e por várias agravantes, são mais hediondos aos olhos de Deus do que outros.”
O próprio Senhor Jesus mediu pecados diante de Pilatos: “o que me entregou a ti maior pecado tem” (João 19:11) — maior.
E acusou os fariseus de coar o mosquito e engolir o camelo, porque deixavam “o mais importante da lei: o juízo, a misericórdia e a fé” (Mateus 23:23) — o mais importante, logo há o menos.
A Bíblia não diz que pecado é tudo igual. Diz que todo pecado condena — e que alguns pesam mais. E os que pesam mais, na régua da Escritura, são os de quem sabia mais, de quem ocupava cargo, de quem persistiu com deleite. Nesse ponto a régua do poeta e a régua da Palavra coincidem: a raposa pesa mais que o leão.
Quando Salomão lista as coisas que o Senhor odeia — o verbo é esse —, ele nomeia sete; e das sete, quase todas são fraude: “olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos” (Provérbios 6:16-19).
Uma violência — as mãos que derramam sangue — e cinco fraudes. E ainda: “balança enganosa é abominação ao Senhor” (Provérbios 11:1) — abominação, a palavra reservada para idolatria.
E a raposa tem história na Bíblia. O Senhor Jesus, avisado de que Herodes queria matá-lo, respondeu: “Ide, e dizei àquela raposa…” (Lucas 13:32) — o único homem a quem Ele deu nome de animal.
E os Cânticos avisam: “apanhai-me as raposinhas que devastam as vinhas, porque as nossas vinhas estão em flor” (Cântico dos Cânticos 2:15). Raposinhas — pequenas, silenciosas, sem rugido — são as que devastam. Ninguém teme a raposa como teme o leão; e é por isso que ela chega mais longe.
E a história mostra a secularização em três passos. O filósofo romano, pagão, no primeiro século antes de Cristo, diz que a raposa merece mais ódio que o leão. Dante, cristão, em 1300, põe a raposa mais fundo no inferno que o leão.
E em 1513, dois séculos depois de Dante e na mesma Florença, Maquiavel escreve O Príncipe, um manual para governantes. Ele pega a mesma imagem do filósofo romano e a vira de cabeça para baixo. Onde o romano dizia “não seja nem leão nem raposa”, Maquiavel ensina: “o príncipe deve ser raposa para reconhecer as armadilhas, e leão para espantar os lobos.” Isto é: para vencer, use a força quando puder e a esperteza quando precisar. O que era vício virou técnica de governo.
Repare na sequência: o pagão condena a raposa; o cristão a condena mais fundo; o secularista manda ser raposa. Em três séculos, a esperteza passou de pecado a virtude política — e é nesse mundo que nós vivemos.
Porque a nossa cultura é a desse manual, não a de Dante. Punimos o leão e admiramos a raposa. O homem que dá um soco vai preso; o homem que dá um golpe vira consultor.
Chamamos de “esperto” quem engana, de “jeitinho” a fraude pequena, de “estratégia” a mentira bem contada. E o crente absorve isso sem perceber: acha que o pecado grave é o do corpo, o que dá escândalo, o que sai no jornal — e trata a fraude como habilidade. Deus não. Deus pôs a raposa no fundo do poço.
Agora, sem rodeios — e comece por si mesmo, não pelo político. Onde você é raposa? Na declaração que “ajusta”? No orçamento que infla? Na conversa em que deixa o outro acreditar no que não é verdade, sem mentir tecnicamente? No sorriso para quem você despreza?
O leão em você é fácil de ver — o grito, a explosão, o murro na mesa. A raposa é a que você chama de prudência. Esta semana, pegue uma coisa que você faz “com jeito” e pergunte a Deus se é jeito ou se é fraude. E se for fraude, desfaça-a — porque, na régua de Deus, ela pesa mais do que o grito de que você tanto se arrepende.
CONCLUSÃO:
O Canto XI começa com um cheiro. O “triste bafo” que sobe do abismo é tão forte que dois homens precisam se esconder atrás do túmulo de um papa para aguentar — e o mestre propõe a única saída que o inferno conhece: acostumar-se.
Vimos que o papa caiu por um bispo, que a heresia sobe, que a ciência confirma o poema — o nariz se rende em dois minutos e só recupera quando sai do cheiro —, e que Deus odeia mais a raposa do que o leão, enquanto nós fazemos o contrário. Mas o sermão precisa terminar no cheiro, porque foi nele que começou.
Porque a Bíblia também fala de cheiro — e fala do outro. Paulo descreve o que o crente é no mundo, e escolhe a palavra do olfato: “graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo lugar o cheiro do seu conhecimento.
Porque para Deus somos o bom cheiro de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem: para estes, certamente, cheiro de morte para morte; e para aqueles, cheiro de vida para vida” (2 Coríntios 2:14-16). O mesmo cheiro.
O Evangelho não muda de perfume conforme a plateia. Para quem se acostumou com o abismo, o cheiro de Cristo é insuportável; para quem está saindo dele, é o ar limpo que devolve o olfato.
Mas há um terceiro cheiro na Bíblia, e ele é o mais grave para nós, porque não é do inferno nem da cruz: é do culto. Amós ouviu Deus dizer de um povo que ia ao templo toda semana: “Aborreço, desprezo as vossas festas, e as vossas assembleias solenes não me exalarão bom cheiro” (Amós 5:21).
Repare: o verbo é cheirar. O mesmo Deus que, depois do dilúvio, “cheirou o suave cheiro” do sacrifício de Noé (Gênesis 8:21) — a primeira vez que a Bíblia diz que Deus cheira alguma coisa — recusa-se a cheirar um culto. E o povo de Amós não sabia.
Estava acostumado com o próprio cheiro. Uma igreja pode se habituar ao seu próprio culto e não perceber que Deus já virou o rosto. É a adaptação olfativa em escala de congregação — e a única cura é a mesma: alguém de fora, com o nariz limpo, dizer a verdade.
Então a pergunta desta manhã não é sobre o mundo lá fora. É sobre nós, aqui dentro. E se a nossa igreja já não exalar um bom cheiro? E se a nossa casa já não exalar? E se a nossa vida, o nosso testemunho, a nossa santidade já não exalarem bom cheiro — e nós sejamos os últimos a saber, porque estamos dentro do cheiro há tempo demais? Essa pergunta ninguém responde sozinho: o cheiro da sua própria casa você não sente; a visita sente na hora. Pergunte a alguém que tenha liberdade de lhe dizer a verdade — e ouça sem se defender.
E antes da cruz, um túmulo — porque o Canto XI começa com dois homens escondidos atrás da tampa de um sepulcro para fugir do cheiro. Há outro sepulcro na Escritura, e ele também fedia. Marta, diante da pedra, tentou impedir o Senhor: “Senhor, já cheira mal, porque é de quatro dias” (João 11:39). E Ele não se escondeu atrás da tampa. Mandou: “Tirai a pedra.” Dante e Virgílio fogem do cheiro e se abrigam atrás de um túmulo; o Filho de Deus manda abrir o túmulo que fede e chama o morto pelo nome. Eis a diferença entre a razão e a graça: uma se protege do cheiro; a outra entra nele para tirar alguém de lá.
E o fecho, como sempre, na cruz — porque a Escritura descreve a cruz com esta mesma palavra. Paulo diz: “Cristo nos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Efésios 5:2). Cheiro suave — a expressão do Levítico para o holocausto aceito. No fundo do inferno há um bafo a que o homem se acostuma; no alto do Calvário há um cheiro suave que o homem rejeitou. Um sobe do abismo e mata devagar; o outro subiu de um madeiro e agradou a Deus. E a pergunta que decide tudo é a mais simples deste sermão: de qual cheiro você está se aproximando — e de qual está se acostumando?
Se você descobriu hoje que já não sente o cheiro da sua própria casa, não tente ajustar o nariz. Faça o que a ciência manda e o que a Escritura mandou antes dela: saia para o ar limpo. E o ar limpo tem nome. “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos” — o convite não é para administrar o abismo; é para sair dele. Levante-se de trás do túmulo e ande. Do lado de fora, o cheiro é outro.

