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Sermões O Céu A Bíblia versus o Secularismo Dante Alighieri e A Divina Comédia

Episódio 217

O amor que sobreviveu ao inferno

Farinata está deitado num sepulcro em brasa — e diz que existe algo que o atormenta mais que o fogo.

Pregação do Pr. Jairo Carvalho na Quarta Expositiva de 9 de setembro de 2026, sobre Gênesis 1.27.

O sermão

INTRODUÇÃO:

O romance “A Divina Comédia” de Dante nos deixou, na última meditação, diante de um pai que caiu de costas dentro do túmulo — e de um homem, ao lado dele, que não virou o pescoço. Cavalcante sumiu.

Farinata continua de pé. E agora ele retoma a frase de onde a deixara, como se um pai desabando ao seu lado fosse ruído sem importância.

Hoje ouviremos esse homem falar até o fim, e o que ele diz leva a uma pergunta que ninguém costuma fazer sobre o inferno: o que um condenado ainda ama?

Porque Farinata não deixou de amar: ama a cidade, o partido, a descendência, o feito de guerra — com uma intensidade que a chama não apagou. É esse amor que vamos examinar, porque ele explica onde o homem está.

A Escritura já dissera o que Dante vai encenar: o que o coração escolhe amar agora é o que ele continuará querendo quando o tempo acabar. A eternidade não troca o coração de ninguém; ela o confirma.

Farinata é essa confirmação em pé, dentro de uma arca — e veremos, com o versículo na mão, por que isso é a pena mais exata que existe.

Veremos o trecho em cinco quadros: o tormento que dói mais que o inferno; a verdade na boca de um condenado; as orações que se fazem no templo de Florença; a aritmética do coração — “não fui só” e “fui só”; e o rosto aberto de Empoli, a virtude sem Deus. E, no fim, o outro Rosto — o que não se escondeu.

1. “Isso me atormenta mais que este leito” (vv. 76-78)

“E, continuando a sua primeira fala,
«Se eles», disse, «aprenderam mal essa arte,
isso me atormenta mais do que este leito.”

Pense nisso. No inferno um homem está deitado num sepulcro em brasa, para sempre — e declara que existe uma coisa que o atormenta mais: a notícia de que os seus não aprenderam a arte de voltar do exílio.

Os comentadores param aqui com espanto: no universo do poema não deveria haver tormento maior que a condenação; e Farinata encontra um.

Repare no que isso revela. Um pai desabou ao lado dele, e ele não moveu o pescoço. Mas basta uma frase sobre o partido para que ele confesse dor. O fogo não o alcança; a facção partidária, sim.

A chama que Deus acendeu ele despreza; a derrota que os guelfos lhe impuseram ele não suporta. Eis um homem cujo coração orgulhoso está intacto no inferno — e apontado para o mesmo lugar para onde apontava em Florença.

O maior estudioso do realismo de Dante escreveu que, no inferno, Farinata é maior, mais forte e mais nobre do que nunca, porque nunca em vida teve tal ocasião de provar o seu coração firme — e que a impressão que ele e Cavalcante produzem não é a de mortos, embora o sejam, mas de vivos.

Isso não é elogio; é diagnóstico. O inferno não apaga o homem: fixa-o. Tudo o que ele foi, continua sendo — só que sem freio, sem prazo e sem saída. Farinata está mais Farinata do que nunca, e essa é exatamente a sua pena.

E note em que consiste esse amor que sobreviveu: em planos. Farinata ainda calcula o retorno dos Uberti, ainda pesa a “arte” de voltar do exílio, ainda contabiliza vitórias e derrotas de partido — como se a política de Florença fosse continuar dependendo dele.

O salmista já havia descrito o fim de todo plano que não passa por Deus: “Não confieis em príncipes… Sai-lhe o espírito, e ele torna à sua terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos” (Salmo 146:3-4).

Os planos de Farinata morreram em 11 de novembro de 1264. Ele continua fazendo contas sobre um tabuleiro que já foi recolhido (guardado) — e uma estudiosa do poema chamou este canto de “amor no inferno”: o amor não desaparece na condenação; apenas continua, sem objeto, sem futuro e sem cura.

A Escritura tem o versículo dessa fixação, e ele é mais duro do que parece: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, santifique-se ainda” (Apocalipse 22:11). Note que o verbo não muda de direção — só de intensidade.

E o Pregador já avisara com uma imagem de lenhador: “no lugar em que a árvore cair, ali ficará” (Eclesiastes 11:3). Ninguém muda de amor depois do último suspiro; apenas o recebe em dose eterna.

Aplique com nome, porque este quadro é para hoje. O que dói mais em você do que qualquer outra coisa — a derrota do seu time, a queda do seu candidato, a perda de um cargo, a perda da influência; a humilhação da sua família,? O que mais o atormenta é o mapa do que você mais ama.

Farinata descobriu no inferno que amava a facção mais do que temia a Deus; descubra o seu mapa agora, enquanto a árvore ainda não caiu.

Faça esta semana a pergunta ao seu próprio coração, ao fim de cada dia: o que me feriu hoje — e por que isso me feriu tanto? A resposta dirá a quem você pertence.

2. A verdade na boca de um condenado (vv. 79-81)

“Mas não cinquenta vezes será reacesa
a face da senhora que aqui reina,
antes que tu saibas quanto pesa essa arte.”

Ferido pela réplica de Dante, Farinata revida com uma profecia. “A senhora que aqui reina” é a lua — Prosérpina, rainha dos infernos na mitologia antiga —, e o cálculo é exato: antes de cinquenta luas, cinquenta meses, o próprio Dante saberá quanto pesa a arte de voltar para casa.

E a história confirmou: em julho de 1304, quase cinquenta meses depois, os últimos esforços dos exilados brancos fracassaram, e o exílio de Dante tornou-se definitivo.

Pare diante do fato, porque ele é teologicamente grave: um condenado disse a verdade sobre o futuro. A profecia era exata. E a exatidão da profecia não o tirou da arca.

A Escritura conhece esse fenômeno e não o esconde: Caifás, tramando a morte de Jesus, disse que “convém que um homem morra pelo povo” — e o Evangelho anota: “ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou” (João 11:49-51).

O demônio na sinagoga de Cafarnaum gritou: “bem sei quem és: o Santo de Deus” (Marcos 1:24) — e continuou demônio.

Fixe a lição, porque ela protege muita gente da ilusão: acertar sobre Deus não é o mesmo que pertencer a Deus. Há quem profetize e esteja perdido; há quem conheça a doutrina de cor e tenha o coração na facção. Farinata sabia o futuro de Dante e não sabia o próprio presente.

E a aplicação vem por outro lado, e ele é mais raro: o inimigo pode ter razão a seu respeito. A crítica dura, a profecia amarga, o aviso que veio de quem não o ama — nem por isso é falso. Pese o conteúdo, não o mensageiro.

E agora a pérola deste quadro, porque ela é o Evangelho inteiro escondido numa data. Farinata lançou a profecia como um golpe — os comentadores usam a expressão exata: ele “se vinga” com ela.

E Deus fez com esse golpe o que sempre faz: sem o exílio, não existiria a Divina Comédia. O poema que estamos pregando há mais de trinta meditações nasceu do pão alheio, das escadas alheias, da cidade perdida.

O que um condenado anunciou como maldição, o Senhor usou para produzir a obra que hoje serve de lente à nossa Bíblia. José já dissera aos irmãos: “vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem” (Gênesis 50:20). O inferno pode acertar a data; só Deus escreve o propósito.

3. As orações que se fazem no templo (vv. 82-87)

“E, assim retornes ao doce mundo,
diz-me: por que é aquele povo tão ímpio
contra os meus em cada uma das suas leis?»
E eu a ele: «O estrago e a grande matança
que fez o Arbia tingir-se de vermelho,
tal oração faz fazer no nosso templo.»”

Farinata quer saber por que Florença persegue os Uberti em cada lei. Dante responde com a frase que os comentadores consideram o único ponto do canto em que heresia e política se tocam: a matança de Montaperti, que tingiu de vermelho o rio Arbia, “faz fazer tal oração no nosso templo.”

As “orações” são as deliberações vingativas das assembleias políticas — que se reuniam dentro da igreja. Florença, conclui o comentador, era uma cidade em que a política se tornara a religião de Estado.

Note a palavra: oração. Dante não diz “decreto” nem “lei”; diz oração. Porque no mesmo espaço onde se cantava o salmo, votava-se o extermínio. O sermão passado tratou da divisão em partidos; aqui o ângulo é outro e mais grave: o espaço sagrado colonizado pelo ódio.

Tiago fotografou a boca dessa cidade: “com ela bendizemos a Deus… e com ela amaldiçoamos os homens… de uma mesma boca procede bênção e maldição” (Tiago 3:9-10). O mesmo templo, o mesmo altar, a mesma boca — hino de manhã, sentença à tarde.

E as orações de Florença tinham resultado concreto. Depois de Montaperti, os gibelinos derrubaram 103 palácios, 580 casas e 85 torres dos guelfos; em 1266, os guelfos voltaram e fizeram a mesma conta ao contrário. Cada facção pedia no templo a demolição da outra — e o pedido era atendido por marretas.

Foi por isso que o Senhor virou as mesas: “a minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões” (Mateus 21:13). Quando o templo vira sede de partido, Ele não reforma — Ele expulsa.

Desça ao chão da sua igreja, e diga a verdade sem enfeite. Há oração sendo feita no templo que não é oração — é ressentimento com vocabulário sagrado. O “Senhor, dá a vitória” que na verdade quer dizer “Senhor, derruba fulano”.

O grupo que ora, e o grupo que é o alvo da oração. Todo pedido que você não teria coragem de fazer olhando para o rosto da pessoa não é oração; é Montaperti.

E há uma tristeza que este texto me obriga a dizer, porque o calendário a trouxe até nós. Dante viu, há setecentos anos, o templo da sua cidade transformado em sala de conselho — o mesmo altar servindo ao hino e ao voto.

E repare que o poeta não denuncia aos gritos; apenas registra, com dor: “tal oração faz fazer no nosso templo”. É uma frase de luto, não de acusação.

E quem olha para o nosso tempo, em ano de eleição, sente a mesma dor. O púlpito, que foi levantado para uma única mensagem, vê passar por ele candidatos, promessas e agradecimentos; o culto, que era encontro com Deus, ganha horário para o discurso; e a liderança, que devia guardar a casa, descobre que a casa tem valor de troca.

Não é preciso acusar ninguém para reconhecer o quadro: basta olhar para Florença, e depois para a nossa própria rua.

Miqueias viu a mesma cena, e também não gritou — descreveu: “os seus chefes dão as sentenças por presentes, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no meio de nós?” (Miqueias 3:11). Leia o fim do versículo devagar: eles vendem — e continuam cantando.

É o templo de Florença: a matança e o hino no mesmo recinto. E Pedro deixou registrado o nome de quem abriu esse caminho: Balaão, “que amou o prêmio da injustiça” (2 Pedro 2:15) — o profeta que descobriu que a própria boca tinha preço.

O contraste é simples, e é triste. O templo de Florença não caiu por falta de fé; caiu porque a fé passou a servir à facção politica.

E Dante o registrou para que nós, sete séculos depois, não tivéssemos a desculpa de não saber como isso começa: começa devagar — com uma boa intenção, um favor razoável, uma gratidão que parece justa — e termina com o altar dividindo espaço com o palanque.

Que o Senhor guarde a Sua casa de virar Florença. E que cada um de nós, antes de outubro, olhe para o seu púlpito e pergunte — não a ninguém, a si mesmo: o que entra aqui que não é a Palavra?

4. “Não fui só” e “fui só”: a aritmética do coração (vv. 88-93)

“Depois de mover a cabeça suspirando,
«Nisso não fui eu só», disse, «nem por certo
sem razão com os outros me teria movido.
Mas fui eu só, ali onde foi sofrido
por cada um que se tirasse Florença do mundo,
aquele que a defendeu de rosto aberto.»”

Ouça com atenção a contabilidade de Farinata, porque ela é a contabilidade de todo homem. Sobre a matança: “nisso não fui eu só.” Sobre a salvação da cidade: “mas fui eu só.” A culpa é dividida entre muitos; o mérito é exclusivo. Dois versos, duas aritméticas — e o mesmo homem. Aqui é a vaidade contábil.

A Escritura mostra os dois lados dessa conta em dois personagens. Saul, cobrado por Samuel, responde: “o povo poupou o melhor das ovelhas” (1 Samuel 15:15) — a culpa vai para o povo.

E o fariseu no templo ora: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens” (Lucas 18:11) — o mérito vem inteiro para si. Saul e o fariseu são um homem só, com dois verbos. E Farinata é os dois na mesma terceira rima.

E aqui a história dá a Farinata uma resposta que ele não ouviu, porque veio dezenove anos depois da sua morte. Em 1283, Florença — a cidade que ele diz ter salvado sozinho — mandou exumar o corpo dele e o da esposa Adaleta do sepulcro de Santa Reparata, julgou-os por heresia, condenou-os, e executou postumamente os restos.

A cidade que ele salvou da cova mandou cavar a dele. Foi essa a gratidão de Florença — e é essa a resposta muda à pergunta do verso 83: “por que aquele povo é tão ímpio contra os meus?”

E veja a ironia doutrinária que se esconde no processo: julgaram o corpo de um homem que ensinara que só existe corpo. Desenterraram a única parte dele em que ele acreditava.

E Dante, com a pena, faz o que a Inquisição não podia: põe esse homem numa arca à espera de Josafá, onde o que será julgado é a alma que ele dizia não ter. Os homens cavam corpos; Deus julga almas. E a diferença entre os dois tribunais é que o segundo não erra e não se apaga.

Aplique a aritmética a você mesmo, e não a Farinata. Quando algo dá certo na sua casa, na sua empresa, no seu ministério — quem foi? E quando dá errado — quem foi? Se a resposta for “eu” na primeira e “eles” na segunda, você está fazendo a conta de Saul.

Inverta-a por sete dias: assuma a culpa inteira do que deu errado, e divida o crédito de tudo o que deu certo. No fim da semana, você terá feito o exercício que Farinata não fez em toda a eternidade.

5. “De rosto aberto: a virtude sem Deus (v. 93)

E agora o verso mais nobre do canto — e o mais perigoso. O sermão dos vv. 22-51 já contou Empoli: a cidade condenada à demolição, e um homem só contra todos. Hoje é o próprio Farinata quem o diz, e escolhe as palavras: “fui eu só… aquele que a defendeu de rosto aberto.”

Não de rosto coberto, não pelas costas, não por emissário — de rosto aberto, diante de quem podia matá-lo. E fica a pergunta que o outro sermão deixou aberta: um condenado pode praticar um ato nobre?

A resposta honesta é sim — e é isso que torna o quadro perigoso. Empoli foi coragem real, altruísmo real, amor real à cidade.

O maior comentador do poema reconhece que a admiração de Dante é sincera; e então crava a frase que decide tudo: o que destrói as credenciais desses homens é quererem alcançar os seus fins sem Deus.

O ato foi grande; a fonte do ato, não. E a Escritura pesa os atos pela fonte, não pelo tamanho: “todas as nossas justiças são como trapo de imundícia” (Isaías 64:6) — não as nossas injustiças, as nossas justiças; o profeta está falando das melhores obras, feitas sem o coração em Deus.

Ponha ao lado de Farinata uma mulher que fez exatamente o que ele fez — ficou sozinha contra a destruição de um povo inteiro — e veja a diferença de fonte. Ester, antes de entrar diante do rei, mandou dizer: “jejuai por mim… e assim irei ter com o rei… se perecer, pereci” (Ester 4:16).

Mesma solidão, mesma coragem, mesmo risco de morte. Mas Farinata defendeu Florença de rosto aberto; Ester defendeu Israel de joelhos dobrados — três dias de jejum antes de um minuto de audiência.

A coragem de um nasce do orgulho de família; a da outra, do temor de Deus. E só uma das duas tem valor na eternidade.

Porque o Senhor avisou, e a frase é das mais duras que Ele pronunciou: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci” (Mateus 7:22-23).

Repare: Ele não nega as maravilhas. Não diz “vocês não fizeram”. Diz “nunca vos conheci”. O céu não contabiliza feitos; contabiliza relação. Empoli entrou para a história e não entrou para o Livro da Vida.

E aqui está a aplicação mais séria deste sermão, porque ela alcança gente boa. Há homens que se apoiam, diante de Deus, na sua Empoli: o que fizeram pela família, pela cidade, pela igreja, pela causa — o dia em que ficaram sozinhos e não recuaram. Nada disso é desprezível — e nada disso é passaporte.

A pergunta do céu não é “o que você defendeu?”, mas “de quem você era quando defendeu?”. Nomeie hoje a sua Empoli — o feito de que mais se orgulha — e faça a pergunta que Farinata nunca fez: eu fiz isso com Deus ou sem Ele? A resposta não muda o feito. Muda o destino.

CONCLUSÃO:

O trecho de hoje nos mostrou o que um condenado ainda ama: a facção, que o atormenta mais que o fogo; o futuro alheio, que ele acerta e não o salva; o templo, onde pediu demolições; o mérito, que guardou só para si; e a cidade, que defendeu de rosto aberto — e que depois o desenterrou.

Um homem inteiro, com o coração inteiro, no lugar errado. Farinata não perdeu nada do que era. Perdeu tudo o que não era — e o que não era, era Deus.

Mas a Escritura tem a sua própria galeria dos que ficaram sozinhos, e o contraste com Empoli é a conclusão deste sermão. Hebreus 11:

10 Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus.
38 (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra.
(Hebreus 11:10, 38)

Duas solidões, duas cidades. Farinata ficou só por Florença — a cidade das muralhas, das torres derrubadas e reerguidas, que o desenterrou dezenove anos depois.

Os de Hebreus 11 ficaram sós por outra cidade, “da qual o artífice e construtor é Deus” — e o texto diz deles o que ninguém dirá de Farinata: “dos quais o mundo não era digno”.

A diferença não está na coragem; está no endereço. Quem defende a cidade errada com todo o coração perde o coração junto com a cidade.

E o fecho, como sempre, na cruz — porque há um Rosto nesta história, e ele responde ao de Farinata. Farinata defendeu Florença “a viso aperto”, de rosto aberto, diante dos aliados que queriam arrasá-la.

Houve Outro que ficou sozinho — “todos o deixaram e fugiram” (Marcos 14:50) — para defender não uma cidade, mas o mundo. E o profeta descreve o rosto dEle naquela hora: “Não escondi o meu rosto dos que me afrontavam e me cuspiam” (Isaías 50:6).

Farinata expôs o rosto por orgulho; Cristo o ofereceu por obediência. Um rosto aberto para ser admirado; o outro, aberto para ser cuspido. E foi o segundo que salvou a cidade que tem fundamentos.

Então, diante desses dois rostos, decida a quem pertence o seu. Se você tem uma Empoli, entregue-a — não para que Deus a apague, mas para que a receba como gratidão, não como passaporte.

E se a sua facção dói mais em você do que o seu pecado, saiba que você já está amando o que Farinata amou — e ainda dá tempo de mudar de cidade. A porta da cidade que tem fundamentos está aberta; a de Florença, Farinata descobriu, fecha-se atrás de quem morre.

Soli Deo Gloria!